Preconceituoso, eu?
Outubro 2, 2008
Gabriel Guzovsky
Jerusalem, Israel
Bem vindos á Israel, um país de 20,770 metros quadrados (para comparar: Brasil = 8,511,952 m2) em que habitam 7 milhões de habitantes de absolutamente todos os lugares do mundo. Israel é um país muito jovem e que fazem 30 anos tinha a metade da população atual, aqui Israelense (Sabra) é coisa rara. São poucas as gerações de nativos com excessão de famílias escassas e tradicionais de judeus que seguiram vivendo nessas terras durante as diversas ocupações deste terrêno. Israel foi berço de Cnaaneus, Israelitas, Assírios, Babilônios, Persas, Gregos (Helênisticos), Macabeus (Hasmoneus), Romanos, Bizantinos, Árabes, Cruzados, Mamelucos, Turcos Otomanos e Ingleses – nesta ordem.
No séc. XX, no ano de 1948 - 50 anos depois da criação do movimento sionista e meses depois do segundo maior massacre de judeus na história – o Holocausto, a Terra de Israel voltou para as mãos do povo de Israel, agora conhecidos como judeus, que durante 1900 anos de refúgio nunca se esqueceram de onde vieram e para onde deveriam retornar. Israel e Jerusalém são parte inseparável do imaginário popular judaico desde sempre, mesmo sem Estado.
“Israel não é um país solo. Israel são todas as comunidades judaicas do mundo.” – disse um general anônimo do exército Egípcio durante a guerra de Yom Kippur em 1973, ao comentar sobre uma batalha vencida pelo Egito que se defendia em sua fronteira no Canal de Suez. Ao ver aviões americanos caírem ao serem abatidos o comandante entende que a guerra contra Israel não é apenas com aquela população que habita ali, mas contra todos os judeus do mundo.
Essa perspectiva traz um aspecto interessante deste lugar, a vida aqui depende da vida ali. O israelense em geral vê muito bem a presença exterior. Aqui se entende que sozinhos não se vai a lugar nenhum. Mas seria então Israel um país sem preconceitos?
Israel é uma democracia parlamentarista, aqui realmente a maioria decide e por isso existem diversos partidos e representantes para quase todo tipo de pessoa. Israel tem de todo tipo de pessoa, desde diferentes países, religiões, cores e sabores. Mesmo entre os judeus, não existe um estereótipo de judeu – há muitas variedades entre o povo dependendo da região aonde estiveram seus antepassados e das variações religiosas. Por essa diferença de raízes, também existe uma diferença cultural. Isso sem contar os cristãos e muçulmanos que também tem algumas várias divisões.
Aqui o preconceito é tão forte que é parte integral da cultura. No discurso, no julgamento, em todo o dia – é necesário julgar para evitar um choque cultural. Esse mecanismo de defesa acaba criando uma tensão intensa. O raciocínio é bem simples, você tem um colega com um nome característico de uma “tribo” diferente da sua, você assume que já conhece ele, você já sabe como ele é, já sabe do que ele gosta. Você não é assim, digamos que você seja exatamente o oposto ou pelo menos pense isso. Então para que se relacionar com essa pessoa? Parece uma perda de tempo…
Este tipo de estereótipo é muito comum, cada pessoa têm a sua marca pessoal muito trabalhada pela sociedade como um todo. E as vezes é difícil sair da bolha para pensar nas tantas possibilidades que temos bem na nossa cara.
A aproximação entre os diferentes existe em algumas situações aqui em Israel – e os mais flexíveis se adaptam muito bem a esta nova realidade e vivem a realidade global deste país; mas ainda existe uma porcentagem que acredita na separação e no desenvolvimento de suas idéias como verdades absolutas dentro de um grupo limitado – muito mais seguro e acolhedor que o vasto mundo de diferenças que nos rodeia.
Não vou entrar no conflito árabe-israelense neste momento à fundo, não é absolutamente relevante. Mas com relação aos árabes, é claro que existe um preconceito mútuo que não é geral, mas que deve ser combatido por ambas as partes agora. O que posso dizer é que em Israel existe um esforço grande para combater esse tipo de preconceito e acalmar o conflito. O problema são os extremistas de ambos os lados que cativam esse preconceito com objetivo de ativar o conflito e lograr seus objetivos.
Israel é um país de diferenças, de preconceitos e de iluminação – tanto religiosa quanto científica. É um país em formação, 60 anos de imigrações e dilemas. Como todo país do mundo, sofre as inevitáveis feridas do fenômeno da globalização e tenta adaptar-se a esta nova realidade pluralista.
Desde o meu ponto de vista, o preconceito é algo que se pode entender que exista em época de transição de sistemas fechados para abertos, um efeito amargo inevitável e lamentável. E por isso é algo que deve ser combatido como prioridade se há o interesse de garantir que esta nova realidade siga vigente e não regressemos à épocas muito mais brutais da história da humanidade.
“Não sei com que armas a III Guerra Mundial será lutada. Mas a IV Guerra Mundial será lutada com paus e pedras.” – Albert Einstein
Entry Filed under: Israel. Tags: ciência e desenvolvimento, conflito Israel, Estado Judaico, globalização, imigracao, Israel, pluralismo, preconceito., transição de sistemas.
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1.
Selma | Dezembro 10, 2008 at 11:04 pm
Gabriel, gostei muito do seu post. Nunca tinha parado para pensar (ou entender) esse preconceito que você escreveu. E o conceito de que Israel está onde o judeu está também ilustra a dificuldade de se estabelecer o Estado de Israel: os judeus o querem, mas no fundo ele não faz muito sentido se o povo não voltar geograficamente para as raízes. Que dicotomia…
Abraços!