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Preconceito no Japão

06/10/2008

Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão

Antes de mais nada gostaria de deixar claro que há uma singela diferença entre preconceito e discriminação racial. Embora esteja errado, o preconceito é algo comum a todos nós, só pode ser combatido com informação e conhecimento. O preconceito pode ocorrer de várias formas, seja pela etnia, status social, emprego, cultura e afins. Porém, a discriminação racial parte do pré-conceito de que todo um grupo “racial”, ou mesmo de um país/lugar definido, torna-se parâmetro para diminuir ou aumentar as pessoas, mudando sua atitudes e criando um sistema de preferências e exclusividades injusto.

manganite

Não cabe mais ninguém no Japão?
foto: manganite

Geralmente quando se fala de preconceito ou discriminação, logo vem à mente o problema que os negros enfrentam há tempos e que é bem conhecido no mundo ocidental. Acredito que seja o exemplo que está mais bem ilustrado na mídia hoje em dia. Há documentários, entrevistas com estudiosos do assunto, filmes sobre o tema e muitos livros discutindo o problema racial. Raça humana, aliás, é um conceito duvidoso e que não foi cientificamente comprovado.

Apesar de tudo, não há como negar que há diferença na aparência das pessoas. Tais características trazem consigo séculos de valores agregados que circundam pelo subconsciente coletivo. Veja um nítido exemplo disso no vídeo abaixo.

Tudo isso é para ilustrar um tema complexo e que merece ser amplamente discutido: o preconceito no Japão. É dito que os japoneses, pela sua própria história, são discriminatórios contra estrangeiros. Já ouvi diversas pessoas se queixarem da comunidade japonesa no Brasil. Presenciei preconceito dos dois lados e posso afirmar que existe sim uma forte discriminação ao que se refere à etnia nipônica. Porém, é nos brasileiros, descendentes ou não, que ela se manifesta mais visivelmente.

Quanto se é estrangeiro, os valores se expandem. Você passa a ser julgado não só pela aparência, mas pela cultura, pelos valores e pela imagem do seu país. O Brasil tem fama de ser o país do futebol, do samba e das mulheres bonitas. Mas também tem fama de ser violento e pobre, criando assim a imagem do cidadão do terceiro mundo que vai atrás de dinheiro em países desenvolvidos, como o Japão. Por isso é comum associar um brasileiro à operário de fábrica ou funcionário menor de escritório quando muito. Poucos têm educação superior e a maioria vêm de lugares mais humildes do Brasil tentar a sorte no país de seus avós.

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Os jovens japoneses adoram cultura estrangeira e são muito amigáveis com pessoas nitidamente gaijin, ou, estrangeiro-branco-ocidental.
foto: messynessy

Não chegaria ao ponto de acusar o povo japonês de ser racista, mas há uma clara preferência pelo estrangeiro americano, inglês ou de qualquer outro país desenvolvido, principalmente os de língua inglesa. Diria que é culpa do domínio cultural que os americanos têm sobre as mídias de massa, como filmes e a música. Está na moda usar roupas com slogans em inglês como “I love NY“, “Chicago Rules” e afins. É cool ter um amigo estrangeiro, é descolado misturar palavras em inglês no meio das frases em japonês, muitos se deslumbram com os trejeitos do estrangeiro e não são poucas as garotas que andam pelas ruas de Tóquio acompanhadas de homens caucasianos com o dobro de sua altura. Os japoneses são loucos por aprender a falar inglês, escolas do idioma são mais comuns que padarias no Brasil. Todos querem ao menos uma vez na vida visitar os EUA.

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É muito comum encontrar roupas com frases escritas em inglês que exaltam a cultura americana. Praticamente todas as lojas populares têm uma coleção somente com esse tema.
imagem do site da loja Right-on

Por outro lado, povos de países em desenvolvimento, como Filipinas, Índia, Vietnã e muitos outros sofrem um tratamento que beira a antipatia, para não dizer que são ignorados por completo. O Brasil faz parte desse grupo de países “fora da moda” mas causa certa curiosidade pela cultura não-asiática e pelo conhecido tratamento amigável que nós damos até mesmo ao mais completo desconhecido. Isso contudo não garante interação nem assegura privilégios.

No Japão as relações sociais são estabelecidas por grupos, é assim desde tempos imemoráveis. Se você é considerado membro do grupo, será tratado como igual. Mas se está fora, é um visitante. Não será mal-tratado, mas não passará de um eterno “desconhecido”. Esse pensamento vale para escolas, empresas, prédios e quaisquer outros lugares onde um grande número de pessoas interagem entre si. Por isso é comum não conseguir se misturar com japoneses, o que causa a incômoda sensação de que você não é bem vindo.

Apesar dos pesares devo confessar que venho me surpreendendo com a cordialidade dos japoneses. Depois de ouvir tantas histórias de racismo no Brasil, estive preocupado com minha aceitação nessa sociedade famosa por proteger seus valores. Porém o que vejo é um povo muito curioso e amigável e até agora não me causou nenhum tipo de dano proveniente do preconceito. Embora ele exista de fato, principalmente entre os descendentes sem mistura, que são cobrados a saber a língua e a cultura como um nativo. Porém, se você um dia vier conhecer essa terra tão confusa, tenho certeza que será tão bem tratado que sentirá saudades daqui pelo resto da vida.

Para fechar esse texto denso, um vídeo do comediante Chris Rock para rir e refletir sobre o preconceito.

また今度!

Para ler mais: 告白~declaração

Agradecimento pelas imagens: MangaNite, Messynessy

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14 Comentários leave one →
  1. 07/10/2008 14:11

    Olá, Gabriel.
    Gostei MUITO do seu texto. Acho que você conseguiu resumir bem o que passa pelas nossas mentes quando lidamos com esse tipo de situação. Não sei exatamente como você se sente (porque não sou nissei), mas percebo a cordialidade dos japoneses que você mencionou. É claro, tudo é diferente quando se pensa na colônia aqui do Brasil…
    Obrigada pela citação ao meu humilde e depreciável blog *blushed*

    Jaa ne, mata.

  2. 08/10/2008 19:47

    Chris Rock é o cara. A série “Everybody Hates Chris” também é uma boa referência.

    É o típico “mano” brasileiro: Quanto menos educado e mais criminal melhor. Vai entender…

  3. 09/10/2008 9:46

    “Por isso é comum não conseguir se misturar com japoneses, o que causa a incômoda sensação de que você não é bem vindo.”

    Olha, por convivência com brasileiros numa firma japonesa onde o próprio dono da firma repreende um japonês se ele tratar um brasileiro diferente de um japonês, posso afirmar que muitos brasileiros não conseguem se misturar com os japoneses por pura falta de interesse. Toda vez que rola um jantar de confraternização com os funcionários, convidam gentilmente TODOS os brasileiros pra participarem, mas geralmente só eu e as minhas irmãs aceitamos!

    A maioria dos brasileiros é tão caipira que têm medo de se relacionar com japoneses, e depois ainda têm a cara de pau de reclamarem que os japoneses separam os brasileiros! MAS SÃO OS BRASILEIROS QUE NÃO SE INTERESSAM EM SE MISTURAR!!!!!

    Não estou generalizando, pois existem brasileiros mais inteligentes que fazem até mais amigos japoneses do que brasileiros, mas é que não existe um termo pra se identificar um brasileiro caipira de um brasileiro mais acessível como nesse vídeo do Chris Rock, onde ele explica que “negros” e “pretos” são diferentes.

  4. Jonas Ribeiro permalink
    09/10/2008 13:57

    Preconceito é uma das faces do medo, e com certeza isso existe inerente em todos os “seres humanos” e também nos “seres não-humanos”. A questão maior é onde a suposta racionalidade consegue vencer esse medo. Onde existe curiosidade e respeito, com certeza trará os lados positivos das possíveis diferenças, mas quando cria-se uma imagem negativa generalizada e qualquer grupo , fruto da falta de informação, ou da informação distorcida, implica em ações contrárias e muitas vezes estúpidas. Outro grande problema que existe em muitos pontos do planeta (eu incluo na casa do lado, ou no ônibus que pego todos os dias) é o preconceito ignorante que além de nascer desse medo do “diferente”, se estabelece como unico caminho para algumas pessoas que não conseguem dar um passo diferente, e pior não quererem nem tentar pensar diferente, vivendo num mundo próprio “perfeito” e “seguro”, que acham a mistura algo problemático.

    Infelizmente a “globalização” da informação por se mostrar cada vez mais superficial quando reporta os fatos de lugares distantes do nosso cotidiano, condiciona a grande massa a pensar pequeno, criando diversos “pré-conceitos”, como achar que no Brasil só existe floresta, ou que no Japão as pessoas são fechadas e não se misturam, ou que nos EUA as pessoas só comem MC Donald’s e tem rifles em baixo do travesseiro, ou que todo faxineiro é ignorante, ou que todo nordestino é brega e ai a lista infelizmente teria mais paginas que 10 biblias juntas. ( e mesmo estes pontos que mencionei, tem seus lado positivos e negativos, que são facilmente “julgaveis” quando se está distante).

    Conhecimento, acho que essa é a melhor arma contra o pré-conceito e a sua face mais horrivel que é o racismo.

    Parabéns Gabriel, seu texto nos abre para caminho para boas discussões!

  5. 13/10/2008 4:46

    Pois e’, Gabriel, a mesma coisa ocorre aqui na Coreia. E eu nem sou “gyopo”, sou brasileiro descendente de europeus, entao, fazer parte do grupo, nem pensar. Ninguem maltrata, mas deixam bem claro que voce nao e’ parte do grupo. Da-lhe Confucio…

  6. bruno testa permalink
    17/10/2008 22:29

    Admiro muito a cultura japoenesa mas ainda bem que nao tenho ascendencia japonesa e sim italiana! Por isso vim parar na italia! ainda bem que tenho vinculos com a italia pq a italia é um pais com muitos vinculos com o brasil, em nivel linguistico, racial e cultural, em que se assemelham muito todos esses quesitos entre os dois paises (se voce for branco é claro)

  7. 19/10/2008 5:11

    Ola!Meu nome eh Juliana, estou no Japao ha 1 ano e meio a mando do governo japones para fazer o papel de ponte de ligacao entre os os dois paises.Moro numa cidade onde ha 3000 brasileiros e quase todos os dias me deparo com inumeros problemas.Concordo com tudo que voce citou no seu post e gostaria de parabeniza-lo pelo otimo trabalho!
    Caso tenha um tempinho, de uma passada no meu blog, tambem!
    Volta e meia eu escrevo sobre esse assunto la, porque realmente, eh dificil ficar calada!
    Um grande abraco!

  8. Simone permalink
    06/11/2008 23:18

    Adorei a topico Gabriel e o seu artigo sobre o Japao. Sempre tive fascinacao pela cultura, infelizmente nao tive oportunidade de conhecer, mas e o primeiro pais da lista das ferias em familia sera Japao.
    Enfim, qdo ouvia o comentario dos brasileiros que viveram no Japao por 9, 10 anos nao podia acreditar…”Sera que tudo que li, nao era verdade?”. A cordialidade, a atitude, a perfeicao (sempre fascinante), a sabedoria. Mas lendo seu artigo compreendi. Pre-conceito existe sim, em qualquer lugar do mundo, incluse no proprio Brasil. Mas acredito que o respeito e o interesse em fazer parte da cultura faz muita diferenca sim. Pra mim morar em um pais por 4 anos e nao falar o idioma eh inadimissivel, eu digo isso pra mim, pra mim nao funciona, acredito q sem falar o idioma vc fica muito limitado. Moro EUA a 6 anos e conheco imigrantes que moram a 20 anos e nao falam o ingles?! Como vc quer ser parte dessa cultura se nao se esforca e nao se interessa por ela! Adorei o comentario do Takeo e sei que eh verdade, porque ja vi isso por aqui tb.
    Parabens pela entrevista amei! Se ja sonhava em conhecer o Japao agora mais do que nunca sei que irei um dia!

  9. Celina permalink
    26/11/2008 8:20

    Ola,
    Sou descendente de japoneses e moro no Japao ha oito anos. Nesses anos todos nunca sofri preconceito e os japoneses sempre foram gentis e nunca me semti fora da “turma”. Concordo com Takeo e Simone. Acho que aprender o idioma en importantissimo pra se inserir na comunidade e entender a cultura. Ate entendo que muitos brasileiros trabalham pesados nas fabricas, mas acho que nao custa e nem cansa estudar um pouquinho diariamente.
    Simone, se vc tiver oportunidade, venha conhecer o Japao sim, eh uma cultura totamente diferente, mas muito legal. Vc vai se apaixonar.

  10. marcia permalink
    16/09/2009 8:42

    Em geral o japao é um pais preconceituoso,soa poucos os que aceitam os estrangeiros.Tenho certeza que um japaones se sentiriam bem melhor no Brasil do que os brasileiros que vem para este pais.No japao existem imobiliarias que aceitam estrangeiros,simplismente por serem gaijins.Alguem ja viu alguma imobiliaria deixar de alugar alguma casa pra alguem pelo fato de ter os olhos rasgados.Eu acho que se agente trabalha e paga imposto em um certo lugar,devemos ter direito de moradia como todos.

    • Paulo permalink
      15/09/2010 18:19

      Moro a quase dez anos,e sei que existem pessoas que nos ignoram,mas é parte de uma populacão,a maioria nos trata bem!Sobre alugar imoveis,o problema é os calotes que os brasileiros dão aos japoneses,indo embora sem pagar as dividas!Isso de fato influência na decisão dos proprietarios!Falo isso porque antes tinhamos facilidades,e depois de vários calotes,eles mudaram a suas posturas com relacão aos estrangeiros!

      • 21/09/2010 15:02

        Não dá para culpar os japoneses. Muito estrangeiro que vem para cá, acaba aprontando e sujando a barra de quem é sério. E não é só brasileiro não. Mas nós, que temos fama de ser um povo alegre e hospitaleiro, deveríamos saber como se portar na casa dos outros também!

    • luis permalink
      07/08/2011 3:27

      Infelizmente muitos brasileiros (descendentes ou não) se recusam a seguir as regras e costumes locais. Agem como se estivessem no Brasil. Não respeitam a lei do silêncio, não separam o lixo, fazem churrasco nas sacadas dos apartamentos, quando saem deixam um monte de lixo, etc. Por causa disso muitas imobiliárias deixaram de alugar para latinos em geral, não por simples preconceito, mas pelos problemas que essas pessoas causam.

  11. 21/09/2010 21:00

    Otimo texto. Aqui na Holanda eles sao fascinados pela cultura americana. E estrangeiro americano logo arruma um montao de amigos holandeses rapidinho. Eles acham “cool”, claro, foi a tal da dominacao cultural que voce falou. Na escola dos meus filhos muitas maes me ignoram por completo, dizem um “oi” entre os dentes de muita ma vontade. Sao geralmente mullheres bem loiras, brancas, que sempre moraram na vila, nao trabalham fora e se casaram com homens de carreira conceituada e altos salarios. Essa pessoas passaram a se invisiveis para mim. Algumas ficam olhando pasma e de soslaio o fato de eu conversar em holandes com varias outras maes, mais abertas, que trabalham fora em Amsterdam. Eu tenho otimos contactos sociais com holandeses, amigos do meu marido, ja viajamos juntos… Mas amigas, amigas mesmo so as do Brasil. E algumas ex-colegas de trabalho brasileiras, argentinas e italianas.

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