O espanhol e o portunhol
Novembro 12, 2008
Glenda Dimuro – Sevilla, Espanha
Que a língua oficial da Espanha é o espanhol todo mundo sabe. Também é assim em boa parte da América Latina. Por isso, o idioma espanhol ou castelhano é o segundo mais falado no mundo, depois do chinês (pelo número de habitantes que a possuem como materna). Depois do inglês, dizem que é a língua mais estudada.
O espanhol deriva de um dialeto do latim, falado nas zonas da Cantabria, Burgos, Álava e La Rioja, províncias do norte da Espanha. Converteu-se no principal idioma popular do reina de Castilla quando o idioma oficial era o latim. Por isso ele também pode ser chamado de “castellano”, uma referencia à zona geográfica onde se originou. A denominação “español” procede do latim medieval Hispaniolus, denominação latina da Península Ibérica Hispania.
É a língua oficial em mais de vinte países e é falado nos cinco continentes. A maioria dos “hispanohablantes” se encontra na América: Argentina, Bolívia (co-oficial com outras línguas indígenas), Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, república Dominicana, Equador, EL Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai (co-oficial com o guarani), Peru (co-oficial com outras línguas indígenas), Porto Rico (co-oficial com o inglês), Uruguai e Venezuela. Nos Estados Unidos sabemos também que muita gente fala espanhol. Na Ásia é falado nas Filipinas (antiga colônia espanhola); na África é falado principalmente no Norte do continente e obviamente nas Ilhas Canárias, Ceuta e Melilla. (território espanhol); na Oceania é praticado na Ilha de Páscoa (território chileno), Sydney (devido a grande quantidade de espanhóis que vivem por lá) e na Nova Zelândia.
Assim como nós brasileiros não falamos o português de Portugal, a diferença entre os diversos “espanhóis” é tremenda. O sotaque latino é mais doce e suave. Os argentinos e uruguaios são encantadores com o seu “vos” e seu chiado. Os mexicanos falam as vogais mais abertas e são cheios de gírias. Mas as diferenças não são apenas intercontinentais já que dentro da Espanha existem alguns idiomas co-oficiais (Catalán, Valenciano, Gallego, Euskera, Aranés) e outros que são falados, mas não são reconhecidos como oficiais (Andaluz, Aragonés, Asturleonés, entre outros).
Aqui em Sevilla se fala o Andalú (Andaluz), caracterizado por cortar palavras (principalmente o final delas), por falar muito rápido e “cecear”, ou seja, falar com a língua presa. Exemplo: “Zapato”. Na América e em alguns lugares da Espanha se fala com som de “s”, mas aqui na Andalucía se fala com um som de super “ssssss” (língua presa e meio que se babando). Outra frase que adoro é “No to pá na” (No estoy para nadie). Enfim, quem entende o andaluz está preparado para entender qualquer castelhano falando. O valenciano tem muitas coisas do italiano, o catalão do francês e o euskera, na minha opinião, de russo!!!
Em alguns lugares como na Catalunha ou no País Basco (leia-se terra original do ETA) o idioma co-oficial é falado no dia-a-dia e nem mesmo as crianças no colégio não são educadas em espanhol. Essa é uma “guerra” interna, alguns acham que estão certos, outros dizem que são preconceituosos… tema para outro post.
Ler espanhol é relativamente fácil, compreender quando falam também (dependendo da região). Encontrei mais dificuldades em escrever e principalmente em falar. Antes de vir morar aqui já tinha estudado o idioma por anos, então estava com a gramática na ponta da língua, melhor do lápis. No início o “portunhol” sai sem querer, pois embora muitas palavras se pareçam quando escritas, a pronúncia é completamente diferente. A maneira como as frases são construídas também é distinta, eles usam muitos pronomes que nós cortamos e muitas palavras mudam de gênero (la nariz, el color). Os “falsos amigos” (falso cognato) existem por todos os lados: apellido (sobrenome), lima (limão), limón (lima), zurdo (canhoto), pastel (bolo), presunto (suposto). Já passamos por vários micos, ampliados pela falta de “tato” dos nossos queridos espanhóis. Aqui, se não falas como tem que ser, eles te olham com uma cara de não entendo nada. Exemplo: dizia eu, “10 de junho” e não me entendiam!!! Só porque eu não dizia “juniiio”. Haja paciência… quantos meses tem um ano e quanto deles se parecem com “junho”??? Talvez o mais memorável foi quando meu marido procurava a “Sala Q em la Calle Metalurgia”. Ele dizia: “Salla Q (que) em la Calle Metalurgia (metalurría)”. Só que Q é “cu” e metalugia é metalúrgia (com a silaba forte no “lu”). E assim, pouco a pouco, se vai levando na cabeça e aprendendo!
Conheço muita gente que vem pra cá sem falar nada de espanhol e com o passar dos dias melhora. Existem outros que estão aqui há anos e não falam nem espanhol, nem português, criaram seu próprio dialeto. Acho importante praticar e tentar pronunciar as palavras com menos sotaque possível (embora muitas vezes isso seja impossível). As vogais são sempre abertas (banco é bánco e cama é cáma) e as história da língua presa para o “z” e o “c” é complicadinho, mas a gente tenta.
Para quem vem para ficar, sugiro que faça um cursinho básico de espanhol no Brasil, para não chegar sem nenhuma noção. Em Sevilla existe uma Associação chamada Sevilla Acoge que dá aulas grátis para os imigrantes. Os estudantes que vêm de intercâmbio também têm direito a aulas gratuitas na Universidade. Além do mais, muita gente vem para Sevilla estudar espanhol nas inúmeras escolas que existem por aqui, principalmente durante as férias de agosto. São mais caras, mas muitas vezes vale a pena. Abaixo o site das principais escolas:
Clic – Giralda Center - Don Quijote - IELE – Estudio Hispanico
Postado por: Glenda Dimuro
Entry Filed under: Espanha. Tags: castelhano, Espanha, espanhol, idioma, Sevilla.
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1.
persistenciadamemoria | Novembro 12, 2008 at 9:18 pm
Glenda, muito bom seu texto!
Cheio de informacoes, muito interessante.
Nas escolas de espanhol em servilla os professores ensinam o espanhol andaluz?
Beijinhos
Ingrid
2.
Ana Tereza | Novembro 14, 2008 at 7:07 pm
Super texto Glenda, quanta informaçao! Bravo!
Beijos
3.
Glenda | Novembro 19, 2008 at 9:16 am
Acho que nas escolas eles ensinam o castellano (espero).
4.
Glenda | Novembro 29, 2008 at 3:09 pm
Ingrid! Olha um post lá no meu blog sobre o andalú:
http://coisaparecida.blogspot.com/2008/11/ak-er-kahteyano-no-lo-ablamoh-malamente.html
Imagina se eles resolverem colocar em prática essa doidera?
5.
ShigueS | Novembro 30, 2008 at 9:50 am
Nossa, fiquei boquiaberto com tantas informações interessantes. Não sabia que o espanhol era o segundo idioma mais falado e estudado no mundo. Isso me lembrou uma experiência interessante que tive aqui no Japão.
Fiquei pasmo quando descobri, há alguns meses, que (também) se fala espanhol nas Filipinas. Aliás, muitos filipinos têm traços latinos, principalmente as mulheres. Portanto cuidado ao conversar em português perto de uma delas, elas entendem bastante do que falamos!
6.
milton | Dezembro 18, 2008 at 5:28 pm
apesar de ter sido uma ex-colônia espanhola, nas Filipinas não se fala o Espanhol, se fala Inglês(foi ex-colônia americana), Tagalo(Filipino) e dialetos locais, porém uma coisa é verdade, a maioria dos filipinos é mestiça, daí que vem os traços latinos que vários deles tem, principalmente as mulheres. o problema é que a Espanha não deu o mesmo tratamento ás Filipinas, que foi dado por exemplo as colônias da América, por isso que ninguém lá fala espanhol, de herança mesmo só os nomes e sobrenomes que são frutos dessa mestiçagem.
7.
Glenda | Dezembro 18, 2008 at 8:23 pm
Pois é Milton, podes ter razão. Nunca estive nas Filipinas, mas já vi muita gente dizer que por lá algumas pessoas falam espanhol… Quando for lá, verifico!
8.
Adson | Julho 22, 2009 at 12:23 am
Não é preciso ir as Filipinas para saber disso. Basta uma boa pesquisa com boas fontes. O espanhol não é mais língua oficial e os EUA não só promeveram uma des-hispanização da população, como tb em guerras de independência e outros conflitos muitos filipinos descedentes de espanhóis morreram ou emigraram. A Espanha instalou um Instituto Cervantes em Manila, na Capital para tenatr resgatar um pouco disso. Atualmente somente umas dez mil pessoas falam espanhol como língua materna. Todavia em regiões mais pobres e isoladas da influência americana, ao Sul (região perigosa por causa das guerrilhas mulçumanas), mais de 500 mil pessoas falam chavacano e outros dialetos com até 70 % das palavras oriundas do espanhol. Algumas palavras vêm do português inclusive, que colonizou numa certa época as ilhas Molucos que hoje são parte da Indonésia. Os portugueses praticavam comércio ali há mais tempo e com presença marcante. Tanto que o japonês “arigatô” vem do obrigado português, e ainda existe um dialeto português crioulo em Málaca, na Malásia, antigo porto de comércio português.
9.
Adson | Julho 22, 2009 at 12:49 am
Desculpem-me. A estória do “arigatou” vir do obrigado já foi derrubada pelos estudos de linguística que comprovaram que a palavra já existia antes dos portugueses chegarem no Japão. Não havia pesquisado a conclusão do meu post o bastante. Na verdade vêm do português a palavra “tempura”, prato típico cujo nome vem de tempero, e algumas outras palavras, principalmente umas relacionadas ao cristianismo. Entre línguas existem muitos cognatos que não tem origem comum, são mera coincidência, como day e dia, que são parecidos mas não tem origem comum. Assim como cem e hundred tem origens comuns e não parece nem de longe.