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Senhora Crisis

10/03/2009

bz

Glenda Dimuro
Sevilla, Espanha

 

968990

 

Crise. Em castelhano “crisis”, assim mesmo, como se fosse no plural para dar mais impacto. Já vai fazer um ano que esta é a palavra mais falada por todos no Espanha. Antes ignorada por muitos e temida por outros tantos, hoje é realidade para a grande maioria do povo espanhol, incluindo nativos e estrangeiros.

Não é uma crise qualquer, é A Crise, a Sra. Crise e já virou fenômeno nacional. Sua força é tão grande que, dizem os “especialistas”, estamos em uma pré-crise, que “ela” está apenas começando, 2010 será muito pior que 2009, que está sendo muito pior que 2008…

A senhora causará estragos econômicos maiores que os de 1929 e os tempos serão piores que no pós-guerra. A recuperação será lenta e está prevista para 2012, os mais pessimistas dizem 2015, e durará até 2018, 2020. Dá medo, não? Pois sim, parece que é de dar medo mesmo.

Atualmente, mais de 3 milhões de trabalhadores estão desempregados (o total da população economicamente ativa ronda os 20 milhões). Um número oficial onde não estão incluídos os milhares de trabalhadores ilegais que vivem por aqui e que também estão sem emprego. As filas para cobrar o “paro” (seguro desemprego) aumentam a cada dia e comércios e indústrias (pequenos, médios e grandes) fecham suas portas.

As causas são muitas e às vezes é difícil entender como começou tudo isso. Sabemos que o tal “problema” é mundial, mas a Espanha está sendo particularmente afetada porque também passa por uma crise em sua economia interna, liderada pelos abusos da construção civil, endividamento das famílias, dificuldades de exportação… Fracasso do capitalismo? Consumo excessivo, práticas individualistas e despreocupadas com as questões sociais? Juros altos? Enfim, a lista é longa e não pretendo entrar em debates desse tipo. O fato é que a Senhora entrou sem ser convidada na maioria dos lares espanhóis e parece que veio para ficar um bom tempo.

Particularmente, a crise está me afetando bastante. O escritório de arquitetura onde trabalhava simplesmente fechou as suas portas e o tempo das vacas gordas para a construção parece que acabou pelo menos por enquanto. Alguns dos meus amigos, estrangeiros e espanhóis, ou estão desempregados ou suas horas de trabalho foram reduzidas pela metade. Alguns cobram o “paro”, outro não. Estamos todos na luta pela sobrevivência e aguardando o que ainda está por vir, só não sabemos quando chegará e nem até quando esperaremos.

Diante desse panorama, os espanhóis do século XXI estão começando a realizar práticas que nós brasileiros  já fazemos há algum tempo. Há três anos, poucos reaproveitavam o outro lado do papel, pesquisavam preços, apagavam a luz ao sair ou aguentavam um pouco o calor para não ligar o ar condicionado. A maioria não se preocupava com economias básicas que podem fazer toda a diferença no final do mês, principalmente quando o dinheiro quase não chega ao final do mês. Em Sevilla, era muito comum ver famílias inteiras comendo quase todos os dias na rua e hoje percebo que o movimento dos restaurantes e bares a cada dia diminui mais.

Quando um brasileiro me comenta que está com vontade de morar na Espanha “tentar a vida” e me pergunta se deve vir ou esperar, eu digo que espere. Sempre passamos trabalho quando chegamos e sem emprego a coisa pode ficar desesperadora. Pela primeira vez em muitos anos o número de imigrantes que chegam à Espanha diminuiu e o governo, afortunadamente, lançou um Programa de Regresso Voluntário onde os trabalhadores estrangeiros que estejam em situação regular no país e cobrando o seguro desemprego, receberão ajuda econômica para voltar ao seu país de origem e começar uma nova vida lá. Se depois de três anos eles quiserem voltar à Espanha, poderão fazê-lo sem problemas, pois não perderão sua documentação.

É uma saída, já que começa a aumentar também os casos de xenofobia. Uma reação provocada, obviamente, pela falta de emprego e luta pela sobrevivência. Cartazes dizendo “espanhol desempregado, imigrante expulsado” não são comuns, mas estão aparecendo pelas ruas.

Seguramente quando a situação melhore, seremos mais fortes. Na nossa sociedade do consumo excessivo não existe espaço para os valores não capitalistas, para as pequenas alegrias da vida e para as relações sociais. Estudos indicam que a felicidade não está diretamente ligada aos recursos econômicos e acredito que estão corretos. A célebre frase “dinheiro não traz felicidade” é verdadeira e percebemos isso quando olhamos aqueles com suficientes recursos econômicos e que não se consideram felizes. Têm tudo e mesmo assim nunca estão completos.

Espero que a Sra. Crise, no final, deixe sua lição: somos frutos de um consumismo e projetamos nossa felicidade em coisas materiais, em tudo que se pode comprar, no “ter” sobre o “ser” e esquecemos que a verdadeira felicidade está dentro de cada um de nós, nas pequenas coisas da vida, no amor, no diálogo e em tudo que não se pode comprar com cartões de crédito.

Não me considero uma otimista completa, sou mais bem realista. Tento levar a vida com bom humor, ainda que seja difícil. Quem está por estes lados, com certeza me entenderá. Quem ainda não está, mas pensa em vir, pense um pouco mais. Quem chegará em breve, boa sorte! Tenho certeza que tempos melhores virão!

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One Comment leave one →
  1. 21/03/2009 10:00

    Tb vivo na grande Sevilla. Faço bicos, mas tá ficando cada vez mais complicado de arrumar um trampo por aqui. Não sei até qdo fico, pq tenho familia por aqui, mas do jeito que vai a coisa, pretendo voltar logo lá pra crise que a gente tá mais acostumado.

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