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Voltar ou não voltar para o Brasil?

04/07/2011

Anita
Amsterdam, Holanda
.

No meu caso, como vim para a Holanda para ficar ao lado do meu amado (que é holandês desde a pré-história e até debaixo d’água) eu vim para ficar… para sempre. Pagamos hipoteca aqui, nossos filhos tem escola gratuita, vivemos num país bem internacional e economicamente estável e central na Europa: fácil para ir para a Escandinávia, para o Mediterrâneo, para a Europa oriental, para o Oriente Médio e para o norte da África.

Voltar ou não voltar para o país de origem é uma decisão muito pessoal, decisão essa influenciada por motivos nem sempre racionais. Já conheci vários estrangeiros europeus que após alguns anos decidiram enfiar a viola no saco e voltar para o país de origem. Apesar da Holanda ser um país rico e que oferece muitas oportunidades, eles sentiram que seriam eternamente estrangeiros com sotaque, e por isso preteridos no mercado de trabalho. Voltaram para a Itália, Irlanda, Croácia, Alemanha e Espanha e foram estudar ou ter um trabalho semelhante ao que tinham na Holanda – mas sem o estresse de terem de se justificar porque estavam na Holanda, porque não falavam (ainda) holandês fluente – isso quando falavam. E sobretudo próximos a seus entes queridos.

Conheci algumas escandinavas que apesar de casadas com holandeses bem empregados quando tiveram filhos deram um ataque de pelancas e arrastaram marido e prole para a Finlândia e para a Suécia. Atenção: países com menos oportunidades de emprego/carreira e bem mais frios que a Holanda. Elas não aguentaram ser estrangeiras (apesar de louras e de olhos azuis e sem dificuldades para aprender o holandês) e viver fora do aconcheguinho do lar frio lar de origem. Elas dizem que estão melhor mentalmente, vivendo em países menos populosos, menos competitivos e com menos engarrafamentos.

Sim, eu poderia voltar perfeitamente a viver no Brasil. Mas aposentada, com os filhos encaminhados nos estudos. E só viveria alguns meses por ano, quando fosse inverno na Holanda e início de primavera. Me pareceria muito interessante passar de novembro a abril no Brasil, fazendo várias rotas pelo sul do país, pelas cidades históricas de Minas, esticando para o Chile, Uruguai e Argentina. Descobrindo pousadas escondidinhas no Rio e em São Paulo.

Por enquanto eu ainda me tensiono ao descer no Galeão, ao dirigir por estrada esburacadas, muitas vezes sem acostamento e de mão dupla. Eu acho a mobilidade pública no Brasil muito cara e limitada – os preços das passagens aéreas são irreais, viajar de trem de norte a sul, leste a oeste… inexistente.

Eu não creio que se voltasse a viver no Brasil, mesmo que fosse por alguns meses por ano, eu teria uma “crise de identidade”. Eu iria curtir muito um solzinho da manhã ou fim da tarde, rodízios, comidas a quilo, água de coco, o frango assado pingando óleo e o pastel da padaria, a melancia e a manga que só existem em terra brasilis, as roupas e calçados leves, a comunicação fácil entre as pessoas. Eu teria sim uma baita crise se tivesse que viver novamente o dia-a-dia eterno numa sociedade tão machista, com tanta divisão social, tanta valorização das aparências e tanto descaso com tudo que é publico.

Mas creio que em 15 ou 20 anos a situaçao do Brasil estará melhor, tanto em termos humanos quanto tecnológicos. Há muito chão a percorrer. Por enquanto eu vou labutando e sendo feliz por aqui.

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10 Comentários leave one →
  1. sergio piccioni permalink
    12/07/2011 12:38

    Anita, acho q vc está completamente certa… o nosso país, com ‘s’, precisa d muuuuuita faxina ainda, antes d ser uma opção decente, perto d tantas outras possibilidades, inclusive aqui na América do Sul…

  2. 19/01/2012 15:48

    “Eu teria sim uma baita crise se tivesse que viver novamente o dia-a-dia eterno numa sociedade tão machista, com tanta divisão social, tanta valorização das aparências e tanto descaso com tudo que é publico”

    Simplesmente perfeito.

  3. 01/03/2012 10:21

    <>

    Anita, te entendo perfeitamente mas confesso que morando há 17 anos na Holanda e vendo este país como está hoje (em termos políticos mais do que econômicos, embora a crise do euro também tenha chegado aqui) eu às vezes também tenho vontade de largar isso tudo e ir embora.

    Minha vida na Holanda nunca foi fácil, por escolhas (meramente) pessoais. Por outro lado, também acho que paraíso na Terra não existe, o paraíso é uma questão pessoal! Quando você está bem, esté bem em qualquer lugar do mundo seja Amsterdã, Paris, Rio, Botucatu ou Tóquio!

    Mas olha, fiquei 11 anos sem ir ao Brasil e quando estive lá ano passado me bateu uma crise existencial sim. Uma crise enorme. Talvez por não estar passando pelo meu melhor momento aqui na Holanda (melhores dias virão). Talvez por ter ficado tanto tempo ser visitar o Brasil. Sinto falta do sol, do calor humano…continuo achando os holandeses muito frios, depois de 17 anos ainda não me acostumei. Mas claro, não sinto falta da ditadura do status, do exibicionismo, da mania de querer tirar proveito de tudo e de todos, do velho “jeitinho brasileiro”…enfim, a lista de coisas que não sinto falta também é enorme.

    Só sei dizer que desde que tive meu filho, fiz uma escolha consciente de ficar aqui. Talvez quando ele esteja crescido e encaminhado na vida, eu ainda volte a morar no Brasil. Do futuro, ninguém sabe…Que sera, sera.

    • 01/03/2012 18:26

      Beth, querida, sabia que eu também vejo vc morando no Brasil ? Acho que Minas é que tem a ver com sua cara ! Aqui na Holanda muita gente é “bot”, eu finjo que não me incomodo mas é cada um na sua mesmo ! Tantos dias cinzas, pouco calor, um sol muito magro. Eu adoro a segurança, a distribuição de renda, a limpeza, a escolaridade gratuita, o transporte eficiente. Mas sinto falta de um praião ou cachoeira, uma frutas suculentas e deitar numa rede da varanda, afff !!

  4. Myrthes permalink
    01/03/2012 11:40

    No meu caso, é diferente. Moro em Dubai, um lugar onde cerca de 85% da população é estrangeira. Com isso a adaptação fica mais fácil, eu imagino.
    O difícil pra mim foi cortar as raizes e sair do Brasil. Não foi fácil, mas a vida é feita de escolhas e escolhas são renúncias.
    Hoje em dia, não me imagino morando no RJ novamente. Tenho certeza que fiz a escolha certa principalmente quando vejo meus filhos terem amigos de todas as partes do mundo. Na mesma sala são cerca de 12 nacionalidades diferentes, fora os demais amiguinhos da vizinhança e da própria escola. Aprender a conviver com tantas diferenças culturais, religiosas e de idiomas, é sensacional! Não tem preço…
    Mas, uma coisa eu aprendi, ter amigos brasileiros ajuda MUITO!
    Sei que voltarei a morar no Brasil, mas isso será numa etapa bem adiante na minha vida onde muita coisa será diferente, as prioridades, os interesses….
    Espero q até lá o nosso Brasil tenha evoluído. Eu tenho esperança….sempre! :)

    • 01/03/2012 18:28

      Aprender a conviver com tantas diferenças é SENSACIONAL mesmo, estou contigo e não abro Mythes !

  5. Claudia permalink
    13/05/2012 8:21

    Eu moro na Holanda há 5 anos, aqui psicologicamente nao é mar de rosas, aqui tem muitos mulçumanos que nao se misturam a cultura nenhuma, sao isolados no mundo deles. Uma grande parte dos holandeses sao racistas de carteirinha, muitos olham para vc e se vc se parecer diferente deles, eles já nao querem mais falar. A tao economia estável já nao está tao estável assim, houve muitos cortes de benefícios e aumento de impostos. Para quem vem de um país quente, aqui é frio o ano todo . O vizinhos mal se cumprimentam com “bom dia, alo”. As crianças das escolas para brincarem juntas fora da escola tem marcar com horários e data antes do dia, a formalidade é típica aqui, se vc for vizitar alguém tem que telefonar antes, nunca vá de supetao, nao é educado.
    Olha! Isso de voltar ou nao é uma questao pessoal, cada um tem sua própria percepçao. Voces podem me perguntarem ‘Porque eu estou aqui?’ Eu também me faço a mesma pergunta todos os dias, tem dias que dá vontade de chutar o pau da barraca e ir embora, mas aqui eu tenho um filho que estuda numa escola publica de qualidade o dia todo, eu nao pago um centavo por ela, tenho condiçoes de conhecer Paris (inclusive levei meu filho na Disney de Paris) Grécia, Dinamarca, Alemanha, enfim, aqui tudo é perto e mais barato para se viajar, aqui pobre e rico pode desfrutar de comer caviá, as diferenças sociais, por enquanto, sao menos do que no Brasil, mas olha, envelhecer na europa, aí é onde está o meu ponto, NAO(para mim) só tenho um filho, aqui as familias mandam os filhos embora da casa logo cedo, os laços familiares nao sao tao entrelaçados como a nossa quente cultura. Eu nem quero me imaginar aqui numa casa de velhos, ou mesmo dentro da minha própria casa, com 70 ou mais de idade, neste frio, sem amigos, quando eu morava na Alemanha, ouvi por 3 vezes dá no noticiário na rádio velhos que moravam sozinhos e morreram dentro das suas próprias casas, os vizinhos por sentirem o cheiro da putrefaçao chamaram a polícia. Aqui a cultura é isolada, os vizinhos nao conversam na porta, nao existe isso! Ë como dizia Tom Jobim “O Brasil é bom, mas é uma merda, aqui é uma merda, mas é bom”!
    Voltar ao Brasil, para mim sim, com certeza, deixe eu arrumar o meu capital.

  6. 14/05/2012 7:55

    Claudia, reconheço muitas coisas do que você disse. Mas conheço um outro lado também. Morei oito anos numa casa da minha cidadezinha e só tinha um contato com um dos vizinhos. Eles me chamaram umas vezes para tomar café no quintal no verão, nos cumprimentavam e batiam papo. Deixavamos as chaves com eles quando viajávamos para eles molharem as plantas. Tudo legal. O resto da rua toda eu só dava bom-dia/boa-tarde-boa-noite. No meu novo endereço os vizinhos são TOP. Continuo dando só bom-dia/boa-tarde/boa-noite pro restante da rua. Mas esses vizinhos compensam TUDO. Trazem uma lembrancinha quando voltam de viagem, me deram flores quando me mudei, molham meu quintal quando percebem que ficou muito seco, tem sempre algo para minhas criancas. Eu tomo conta dos gatos deles quando eles viajam e procuro fazer o mesmo nos agrados.
    Agora, o povo aqui vive tanto mas tanto que eu não vejo outra solução do que asilos (muito bem estruturados por sinal). Quem quiser que coloque seus pais idosos em casa para tomar conta – mas com todas essas escadas, como fazer ?
    Eu pretendo me aposentar cedo e passar longas estadias no Brasil. O frio é duro, a falta de um solzinho nem se fala. Eu dou uma banana para pessoas escrotas, que acham que tudo no Brasil é pobre e que quem tá aqui tirou na loteria. Nem me explico mais pra esse povo. Dou risada, reviro os olhos e saio rebolando. A quantidade de cabeças limitadas é mesmo infinita.

  7. wania povoa permalink
    30/10/2012 14:48

    passo por esta crise agora, voltar ou nao para o brasil, porque moro nos açores, na ilha terceira, aqui to no isolamento, me sinto só apesar de ter 2 filhas e uma enteada, sinto que tudo o que li corresponde a mim em relaçao ao povo europeu, sua frieza, a dificuldade de se fazer amigos verdadeiros, de alma limpa como no brasil. Penso em voltar por todas as dificuldades que a europa tem passado, pela saudade da minha terra , da minha gente, dos sabores etc. mas estou em crise pois levarei meu marido portugues, minhas filhas portuguesas e voltarei para uma terra machista, suja, corrida no dia a dia. moro ha 11 anos em portugal e ha 10 nos açores e espero poder comprar uma casa menos que a que tenho aqui, montar um negocio proprio e criar minhas meninas junto da familia. espero que Deus me abençoe pois a maior responsabilidade desta mudança é minha e nao posso me dar ao luxo de errar na escolha. nao sei se foi a tal sindrome de ter ficado tanto tempo ser ir a minha terra, o rio, e ter estado este ano lá depois de 10 anos ausente, mas o certo é que aqui onde estou, nao dá mais nao!

  8. Ana Paula Ribeiro permalink
    31/01/2013 0:07

    O Brasil nao é uma opçao decente… nao voltar sim, é uma opçao MUITO melhor. Nem precisa pensar muito pra concluir. Eu voltei e me arrependi muito!

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