Posts filed under 'China'
60 anos da RPC- Alfinete no pescoço para corrigir a postura e a (não) festa do povo
Colaboração
A preparação em torno dos 60 anos da revolução da comunista está digna da preparação para a Olimpíada. Claro, a diferença é que a liberdade que o povo tinha durante os jogos (pelo menos de locomoção) foi muito mais dificultada. Mas isso é assunto para depois. Agora estou bege é com outra coisa.
Divulgaram esta semana umas fotos de como o exército está se preparando para a grande data e o desfile militar. Para ter certeza de que todo mundo vai manter a postura na hora, o alto comando apelou para a dor dos pobres soldadinhos.
Não é impressão sua, colocaram alfinetes nos colarinhos para que os soldados treinem, na base da dor, como ficar firmes durante o grande desfile. Nada de olhar para baixo ou relaxar o pescoço, caso contrário já era.
Sério, as vezes eu acho que esse povo é muito doido. Pelamordedeus!
Essa deu no blog da revista The Beijinger, publicação em inglês voltada para os expatriados da capital chinesa.
Todo mundo em casa e quieto
O mais estranho desta festa que celebra “o socialismo com características chinesas”, estabilidade, a harmonia e o povo, é que o povo mesmo não vai poder estar presente. Ao grande e estonteante desfile militar prometido, só convidados assistirão. Inclusive farão papel de povo na festa. A praça e a avenida Chang’An, principal via da capital, estarão fechadas. O metrô estará fechado. Aqui onde trabalho algumas pessoas ficarão hospedadas em hotéis nas redondezas porque não será possível se locomover dentro da cidade.
Entretanto, as restrições são ainda maiores. Os criadores de pombos (hábito bem comum por aqui – e não, por incrível que pareça não é cheio de cocô de pombo pela cidade) não poderão deixar os pássaros voarem neste dia (e nos anteriores), também está proibido soltar pipas e balões. A neurose não para por aqui. Está proibida a venda de facas, tesouras e objetos cortantes nos dias que antecedem a festa. Gigantes como Wal Mart e Carrefour também tiveram que tirar estes produtos das prateleiras até que o feriado nacional termine. Claro, sem contar o policiamento, que está sendo redobrado e conta com ajuda de voluntários em todos os pontos da cidade.
Pensa que acabou? Presta atenção nisso: quem vive perto do local das celebrações terá que manter portas e janelas fechadas, mesmo com o show de fogos programado para a noite do dia 1 de outubro. E ainda há uma orientação para que as pessoas não convidem os amigos para visitas neste dia.
Agora me diz, que espécie de festa para o povo é esta??
Mais curiosidades sobre a China, entre no blog da Paula Coruja.
Add comment Setembro 24, 2009
In the mood for China
Colaboração
-5ºC na rua. Um nevoeiro que não dava para ver nada. Caracteres por toda a parte. Completamente analfabeta. Cansaço. Ansiedade. Foi assim que eu cheguei na China.
Eu não lembro de escutar ninguém falando chinês no voo, não lembro de ter a opção no cardápio de comida chinesa. Lembro da paisagem montanhosa três horas antes de aterrissar, lembro de ver os primeiros caracteres no formulário de entrada no país. Não lembro da fila na imigração, não lembro do tempo que esperei a bagagem. Lembro que tinha abraço me esperando e plaquinha com o meu nome.
A partir daí, tudo é novidade. Morar em outro país é sempre uma experiência maravilhosa, até mesmo quando é ruim. Morar na China, é uma experiência única, distante de todos os sonhos mais populares. Não é um país de primeiro mundo. Não é um país democrático. Não tem um idioma que você vai aprender a ler quase naturalmente. Não é um destino popular onde você vai ter momentos em que vai estar tão rodeado de outros brasileiros que vai sentir, por um momento, que nem saiu do Brasil.
Quando eu cheguei aqui não sabia bem o que esperar. O gigante asiático nem parecia tão grande assim só olhando no atlas. A evolução, o crescimento econômico, a conquista do direito de sediar uma olimpíada, a pujança nunca esteve exatamente no meu imaginário. As roupinhas iguais do tempo da Revolução Cultural, o idioma incompreensível, a censura, o comunismo, o massacre na praça, o trabalho infantil e a conta da bala para a família em caso de pena de morte faziam mais parte da minha imaginação. Eu realmente não sabia o que era esse lugar onde vim parar.
Com as novidades saltando aos olhos, o que mais se quer é descobrir. A adaptação no inverno pode ser mais complicada. O cinza ainda comum nos prédios e muros de Beijing parecem ainda mais sombrios no inverno. O clima seco corta, castiga, bem como a saudade. Mas era um período de adaptação e o que mais se quer é se sentir feliz, ou, pelo menos, adaptado. Começa o período das buscas, do conhecer o lugar, das muitas leituras. Como eu podia saber tão pouco dessa história? Como pode o resto do mundo todo pensar isso?
Para se adaptar é necessário se integrar e essa tarefa nessa sociedade milenar parece ao mesmo tempo fácil e impossível com o passar dos dias. O povo chinês sorri muito, sorri os dentes que não tem, sorri com o cigarro no canto da boca, sorri depois que cospe. Aqui é o único lugar em que o sorriso amarelo é bom, faz a gente se sentir bem-vindo, querido, estimado. As primeiras palavras ditas em mandarim são sempre alvo de elogios por parte dos chineses. Talvez eles tenham ideia de como é difícil aprender a pronunciar todos aqueles fonemas absurdos e façam isso para dar uma forcinha. Aí você pensa: “consegui me adaptar”.
As novidades não estão apenas nas cores novas, na nova escrita, no novo idioma ou no novo povo. As novidades culinárias são, muitas vezes, as mais torturantes para um estrangeiro na China. A lógica da comida e das refeições são diferentes das nossas, tudo tem um porquê, tudo vai equilibrar algo no funcionamento pleno do organismo, o excesso de óleo, pimenta, arroz, e até a falta de sabor de alguns pratos tem uma razão. Depois de não passar com trabalho com isso, você pensa: “consegui me adaptar”.
Com o tempo, a saudade doída é abrandada e você acaba algumas vezes conversando mais com as pessoas do que quando estava ao lado delas. Quanto o mais o tempo passa, mais diminui o número de pessoas que você queria ali, do seu lado mesmo. Muitos amigos, conhecidos, acabam na lembrança nostálgica, a saudade gostosa. Não dói, você não precisa ter perto, mas é bom lembrar e ter histórias pra contar. Quando isso acontece, você pensa: “consegui me adaptar”.
Todos aqueles estereótipos que a gente traz na mala quando vem para na China, vão cansando com o tempo. A primeira vez que se visita o Brasil depois de mudar pra cá é de enlouquecer. “Como é morar na China?”, “Como tu te vira com a comida?”, “O que tu come?” ” Já comeu grilo, gafanhoto, bicho-da-seda?”, “Já fala, lê e escreve chinês fluente?”, “Eles têm mesmo pinto pequeno?” são perguntas que a gente escuta 89.271.023.237.783.642 vezes. São só essas as curiosidades? Só isso que foi transmitido e retransmitido durante a Olimpíada, único momento em que a mídia brasileira realmente deu bola pra China? O pior é ver brasileiro falando com desdém, como se aqui fosse um lugar pré-histórico, perdido no tempo e rodeado só de pobreza. Ou como se o comunismo estivesse presente em tudo, pintando a China de 2009 como o que era na década de 70, ou como o que é a Coreia do Norte. Brasileiro que não vê o próprio Brasil, as próprias misérias. Cansa.
Com o tempo o que também vem são os amigos. Amigos que vivenciam todas as mudanças pelas quais a gente passa, amigos que são parte deste povo novo que a gente tenta entender. A gente acha que é aceito pelos chineses. A gente até acredita que criou amizades com a mesma profundidade que tem o nosso próprio povo. É, com o tempo vê que isso é só ilusão. Apesar da simpatia, do carinho, da dificuldade em dizer não, um chinês nunca vai conseguir ser tão amigo, tão irmão. E é o momento em que a gente percebe que só adaptação não basta. A diferença cultural vai, em algum momento, criar uma barreira. Você sempre será o laowai, o estrangeiro. Mesmo nascendo aqui, crescendo aqui, falando, lendo e escrevendo chinês. Mesmo que este seja o único país que você entenda como lar, isso sempre existirá. Ruim? Diferente.
A lógica (ou a falta de) chinesa tem dias que te deixa de cabelo em pé. A censura faz com que duas vezes por semana, pelo menos, você queira ir embora. Trabalhar e conviver com chineses muitas vezes faz com que a sua paciência seja testada ao limite máximo. Aqui tem jeitinho. Aqui la garantia soy yo. Aqui as relações são na base do guanxi (e do baijiu). Aqui a cerveja é quente. Aqui eles tomam sopa no café da manhã. Aqui tem gente com medo de estrangeiro. Aqui às vezes a gente se sente no meio de uma piada de português. Aqui o povo não vê diferença entre o governo, o país e o povo. Aqui os estrangeiros também cansam, com seus preconceitos contra o povo que os recebe. Mas pergunta se a gente quer ir embora?
O viés enlouquecedor é inversamente proporcional ao encantador. Não só pelo povo. Não só pelas belezas naturais. A China tem uma mágica, um feitiço. Quem vem pra cá acaba vivendo uma relação de amor e ódio, como a mais avassaladora das paixões.Essa é mais uma das coisas que não lógica. Eu não sei se posso encher a boca para dizer que sei o que é este país. Eu continuo achando atrevimento quem diz que sabe e começa a ditar regras, como se fosse possível enquadrar 1,3 bilhão de pessoas. Tem dias que eu quero ir embora, porém agora, no momento em que eu estou pensando e me preparando para isso, vejo o quanto aprendi e o quanto continuo com vontade de China. Talvez agora você não entenda, mas se um dia passar por aqui e se abrir, um pouquinho que seja, com certeza vai entender.
Paula Coruja, tem 28 anos e há quase dois mora em Beijing.
2 comments Agosto 14, 2009


