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O sistema de saúde na Inglaterra

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

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NHS (National Health Service) é o nome do sistema de saúde público na Inglaterra, o equivalente ao SUS do Brasil. Emprega 1.3 milhões de pessoas, atende a 1 milhão de pacientes a cada 36 horas e é considerado a maior estrutura de saúde pública do mundo. Devido ao seu tamanho gigantesco e complexidade, a qualidade dos serviços prestados poderá variar dependendo da região onde se mora. O NHS é frequentemente criticado pela mídia britânica, mas as pesquisas mostram que a maioria da população inglesa se diz satisfeita com o atendimento recebido.

Tem direito à atendimento gratuito:

  • Residentes legais com residência permanente;
  • Refugiados;
  • Estudantes matriculados em curso de no mínimo 15 horas semanais e com visto de estudante válido por mais de seis meses, e seus familiares;
  • Solicitantes de asilo e
  • Pessoas com permissão de trabalho (work permit)

Turistas e estudantes com menos de seis meses de curso devem providenciar um seguro de saúde internacional antes de deixar o Brasil para cobrir eventuais custos com despesas médicas.

Qualquer pessoa, incluindo aí imigrantes em situação irregular (ilegais), tem direito ao atendimento de emergência gratuito (1) em qualquer hospital caso sofram um acidente ou estejam passando mal. Basta se dirigir ao setor de emergência de qualquer hospital (A&E – Accidents and Emergency Department) ou em um “Walk-in centre” para ser prontamente atendido. Se você tem dificuldade em se expressar em inglês, vá com algum conhecido que possa te ajudar na tradução ou solicite um tradutor, pedido esse que dependerá da disponibilidade de um no momento do atendimento. Caso não tenha condições de se locomover, ligue para o serviço de emergência discando 999 e uma ambulância irá te transportar para o hospital mais próximo.

(1)     Se o seu problema médico for considerado grave, precisar de internação e você estiver em situação irregular, é provável que você tenha que pagar por todos os serviços prestados a partir da internação no hospital.

 

Registro no General Practicioner (GP)

Assim que chegar na Inglaterra e tiver um endereço fixo, procure o GP mais próximo de onde você mora. A maneira mais simples é ir no site do NHS e digitar o seu Post Code (CEP) para obter uma lista dos GPs da região. Ligue para marcar uma consulta e verificar quais os documentos necessários para fazer o registro. Após preencher um cadastro, um médico te atenderá para um exame de rotina onde você deve declarar se tem ou teve algum problema de saúde. Pronto, você receberá um cartão com o número do registro pelo correio e as portas do NHS estarão abertas para você.

O GP será seu “médico de família” ou o seu “clínico geral”. Se tiver qualquer tipo de problema é só marcar uma consulta com o seu GP. Para problemas mais complexos, o GP te encaminhará para um médico especialista. Diferentemente do sistema brasileiro onde você vai direto ao médico especialista, aqui você precisa primeiro passar pelo GP que fará uma avaliação para verificar a gravidade do problema, que em algumas vezes pode ser resolvido por ele mesmo.

Caso necessite de remédios, o GP ou médico especializado te dará as receitas médicas necessárias. Em linhas gerais, idosos, crianças, mulheres grávidas e pessoas com baixo rendimento não pagam por medicamentos, logo verifique se você é isento. A taxa para cada receita é fixa em £7.20 que você paga e obtém direto em qualquer farmácia.

Farmácias

A maior rede de farmácias é a Boots que está presente em toda parte do país. Embora nem sempre tenha o melhor preço, terá praticamente tudo o que você possa ou não precisar. Além dela há também a Superdrug e Lloyds Pharmacy. Há farmácias situadas dentro dos grandes supermercados como Tesco e Asda. E complementando há as farmácias de bairro.

É importante notar que as farmácias daqui não vendem remédios que precisam de receita sem a receita médica como no Brasil. Antibióticos por exemplo só podem ser obtidos com a receita médica. Há, no entanto, uma variedade imensa de remédios genéricos disponíveis nas prateleiras para a maioria dos problemas comuns que você poderá comprar sem necessidade da receita médica. Em relação ao preços dos remédios (sem contar os que são prescritos pelo GP que custam £7.20), a diferença de preço entre as farmácias geralmente não varia muito, mas se você precisa de um medicamento muito caro, pesquise bem e verifique a possibilidade de o seu GP te passar uma receita médica.

Quem está vindo para a Inglaterra e está sob medicação mas não tem o direito a se registrar em um GP, venha com estoque suficiente para o período de sua permanência. Caso você tenha conseguido se registrar, leve o seu medicamento para o GP, explique o problema e peça pela prescrição de um equivalente. Aos que estão acostumados com os remédios do Brasil, é possível encontrar aqui medicamentos tão bons como os do Brasil ou até melhores e com sorte até mais baratos.

Camisinhas são facilmente encontradas nas farmácias mas também podem ser obtidas gratuitamente em alguns postos de saúde. Para outros métodos anticoncepcionais, marque uma consulta com o seu GP para discutir a melhor opção para o seu caso. Anticoncepcionais são gratuitos pelo NHS. Para quem está habituado a pagar uma fortuna todo mês pela pílula anticoncepcional no Brasil, vale a pena ter que ir ao GP para pegar a receita médica. Você então retira em qualquer farmácia sem custo algum.

Plano de saúde particular

São tão caros como os do Brasil. No entanto, grande parte da população acaba recorrendo ao “bom e velho NHS” por confiar nos serviços prestados ou por não ter condições de bancar um plano privado. Existem vários planos, porém o mais conhecido de todos é o Bupa. Antes aderir a qualquer plano de saúde particular, certifique-se do que tem e não tem direito, já que às vezes vale mais a pena utilizar os serviços disponíveis pelo NHS.

Maternidade

O NHS cobre todo atendimento desde o pré-natal até o pós-parto gratuitamente para quem é registrado. A primeira consulta deve ser feita com o GP que te indicará para o hospital local (você poderá mudar caso prefira um outro hospital). Há muitas mães brasileiras que resolvem ir para o Brasil para o parto, com medo da má reputação das maternidades inglesas. Isso também ocorre com mães oriundas de outros países europeus onde o serviço de saúde público é melhor do que o inglês. Mas há também quem resolva encarar o serviço oferecido pelo NHS. Algumas não tem problema algum, outras acabam traumatizadas. Cada caso é um caso e vai depender da sua escolha pessoal.

Dentista

Quem está registrado no NHS tem acesso a tratamento dentário a preços reduzidos. Idosos, crianças, mulheres grávidas e pessoas com baixo rendimento não pagam por tratamento. Verifique no site do NHS onde achar um dentista mais próximo e que esteja aceitando novos pacientes.

Experiência pessoal

GPs – Quando fiz minha primeira consulta com o meu atual GP há cinco anos atrás, não fiquei com uma boa impressão, talvez por preconceito meu, já que ele é indiano e certamente já passou dos 60 anos. O atendimento foi curto e frio. O consultório fica numa casa localizada há cinco minutos de distância de onde eu moro. Tem uma recepção, uma sala para o médico e outra para a enfermeira, bem diferente do consultório do meu clínico geral em São Paulo onde eu pagava um plano de saúde particular. Hoje sei que aqui não devemos esperar nem por um aperto de mão ou por qualquer pergunta relacionada a sua vida pessoal, tipo como vai a família. No NHS, não há tempo para esse tipo de coisa. Sempre que preciso ir ao GP, a sala de espera está lotada com pacientes que marcaram consulta ou precisam de atendimento urgente. Hoje me considero uma pessoa de sorte por ter esse GP como meu médico. Se o atendimento é seco, ele nunca falhou comigo. Fui descobrir depois que ele foi condecorado pela Rainha Elizabeth II com um OBE (Officer of the British Empire) pelos serviços prestados à saúde pública.

Maternidade – Quando fiquei grávida do meu filho em 2007, fui encaminhada ao Newham Hospital na zona leste de Londres que fica a quinze minutos da minha casa. Mesmo sabendo da má reputação tanto das maternidades do NHS em geral como daquele hospital em particular, resolvi ter meu parto ali mesmo por questões práticas. Enfrentei muita fila de espera para cada exame pré-natal e quando fui ao hospital para o parto, era claro que o lugar estava superlotado e havia escassez de recursos para manutenção e limpeza das alas. Acabei tendo que passar por uma cesariana de emergência devido a uma pequena complicação mas meu filho nasceu sem qualquer problema. Fui relativamente bem atendida e levando em conta as condições do hospital não tenho do que reclamar. Alguns dias após o nascimento, recebi visitas das midwives (enfermeiras) em casa que vêm para checar se tanto você como o bebê estão bem. Depois disso, somos encaminhadas para as health visitors, que irão acompanhar o desenvolvimento do bebê assim como checar se as vacinações estão em dia e se há qualquer problema.

Plano de saúde particular – A empresa onde eu trabalho paga um plano de saúde básico para mim e para a minha família no valor de £175 por mês, sendo que eu pago apenas o imposto decorrente do benefício. É um benefício opcional que felizmente até hoje nunca precisei usar. Acho que vale a pena ter a tranquilidade de saber que estamos cobertos se houver algum problema mais grave. O plano funciona como um seguro de carro: custos até £100 são pagos do próprio bolso e acima disso o seguro paga. Maternidade e odontologia não são cobertos pelo plano básico. Para ter acesso aos serviços disponíveis, você precisa ir ao seu GP e pedir uma carta te indicando para uma consulta.

Dentista – Nunca precisei ir ao dentista na Inglaterra. Visito o meu dentista sempre que vou ao Brasil de férias. Meu marido precisou recentemente consertar uma coroa e teve que ir a um dentista local. O problema foi resolvido, custou pouco, mas ele achou as condições do consultório muito precárias.

1 comment Julho 27, 2009

Londres em um dia: do West End até a City

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

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Dá pra fazer a pé esse roteiro básico: comece no Buckingham Palace (seta azul no mapa), atravesse o Green Park, ande até Picadilly Circus, siga em direção à Leicester Square, desça até a Trafalgar Square onde fica a National Gallery, continue até Houses of Parliament/Big Ben passando por 10 Downing Street e pela Westminster Abbey, atravesse a ponte para o South Bank, vire à esquerda em direção ao London Eye (vale a pena dar um giro se o tempo estiver bom), continue andando à beira do Rio Tâmisa até o museu Tate Modern, atravesse a Millenium Bridge e suba até St. Paul’s Cathedral que fica no meio do centro financeiro de Londres, mais conhecido como City of London. Se você ainda tiver disposição, siga no sentido leste até a Tower of London (seta vermelha no mapa) e Tower Bridge.

1 comment Junho 21, 2009

Egito – Luxor e Cairo

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

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Luxor - Rio Nilo e o West Bank ao fundo com as montanhas do deserto e balões cheios de turistas sobrevoando a região

Após ter visitado quase todos os países da Europa Ocidental, eu e meu esposo resolvemos que tinha chegado a hora de botar o pé pra fora do continente. Como tínhamos curtido muito visitar os templos de Atenas na Grécia e os teatros gregos da Sicília na Itália, o lugar mais óbvio a ir seria o Egito que fica há apenas cinco horas de vôo de Londres e seria uma viagem que não custaria o olho da cara.

O vôo em si foi fascinante. Atravessamos o Canal da Mancha, todo o continente europeu, o Mar Mediterrâneo e enfim estávamos sobrevoando o deserto do Saara. Dava pra ver perfeitamente o percurso curvoso do Rio Nilo que tem as margens verdes e deserto dos dois lados. Aterrisamos em Luxor, que fica na parte centro-sul do Egito, onde no passado existiu a famosa cidade de Tebas, ex-capital do Egito. O local é considerado como “o maior museu a céu aberto do mundo” por muitos devido ao grande número de monumentos espalhados por toda parte e atrai milhares de turistas o ano todo. Apesar disso, trata-se de um dos poucos lugares durante as minhas andanças onde não cheguei a encontrar brasileiros.

Logo demos de cara com aquilo o que marcaria a viagem do início ao fim: gente oferecendo serviços aonde quer que se vá. Pra carregar sua mala do aeroporto até o ônibus, pra te levar até o seu hotel, pra te levar para um passeio de caleche (carroça) ou de barco, pra te levar ao mercado, enfim, era um verdadeiro tormento toda vez que pisávamos fora do hotel.

A cidade em si não tinha nada a oferecer, o que nós já sabíamos. Fomos logo de cara visitar o West Bank, a parte oeste do Rio Nilo, onde antigamente os mortos eram tradicionalmente enterrados por ser o lado onde o sol se põe. Ali estão o Vale dos Reis onde se encontra a célebre tumba de Tutankhamon , o Vale das Rainhas e o Templo de Hatshepsut, uma das mais bem-sucedidas faraós que o Egito teve na Antiguidade.

Pra dar uma refrescada do calor do deserto, reservamos uma felucca (uma espécie de jangada) pelo Rio Nilo, um passeio meio que obrigatório pra qualquer turista. Enquanto a margem leste do rio é cheia de barcos e hotéis, a margem oeste tem casas pobres, moleques jogando bola e camelos comendo grama. Por causa do Ramadã, o passeio foi encurtado para que os dois rapazes que nos guiavam pudessem voltar a tempo para suas orações e desjejum. O Ramadã é o mês sagrado do calendário islâmico durante o qual os muçulmanos praticam um jejum específico desde o alvorecer até o pôr-do-sol: não podem comer, beber, fumar ou fazer sexo e devem concentrar-se em sua fé neste período.

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Obelisco no Luxor Temple

Visitamos também o Luxor Temple e o Karnak Temple na margem leste do Rio Nilo, o lado onde o sol nasce, lado da vida e onde os reis construíram seus templos. Esses dois templos eram antigamente conectados por uma longa avenida com esfinges alinhadas em ambos os lados, porém hoje restam apenas vestígios dessa via. Também entre os dois templos fica o maior museu da cidade, o Luxor Museum, um museu relativamente novo e pequeno porém muito interessante.

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Templo de Karnak

Fizemos uma “day trip” para Cairo e acabou sendo um dia muito louco. São 624 quilômetros ao norte de Luxor cobertos em pouco mais de uma hora de vôo, novamente sobrevoando o Rio Nilo. Um guia nos recebeu no aeroporto e nos levou direto para ver as pirâmides de Gizé. Se alguém aqui acha que o trânsito de São Paulo ou do Rio é uma loucura, nem pense em alugar carro em Cairo: a maioria dos carros tem riscos ou batidas laterais e ninguém sequer respeita semáforo.

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Não coube a pirâmide inteira na foto...

Eu não compreendo como existe gente que diz ter se decepcionado com as pirâmides; pra mim foi um dos momentos mais mágicos da minha vida, estar ali ao pé daquele monumento gigantesco, e imaginar como aquelas pedras foram todas parar ali no meio do deserto de areia. Ninguém ainda provou como conseguiram empilhar aquele monte de paralelepípedo gigante, cada um com um formato diferente, em forma de uma pirâmide perfeita vista de longe. Aliás, três pirâmides perfeitas. A Miquerinos me pareceu um pouco mixuruca perto das outras duas, porém o guia explicou que ela foi acabada as pressas pois o faraó morreu antes da pirâmide ser concluída. Também segundo ele, o faraó Quéfren não poderia ter construído a sua pirâmide maior do que a do irmão Quéops por respeito ao ex-faraó, porém construiu a sua pirâmide em um local mais elevado de tal maneira que à distância aparenta ser maior apesar de ser menor em altura. Fomos visitar a famosa Esfinge ali perto, mas devo confessar que me decepcionei um pouco. Coberta parcialmente por andaimes, sem o nariz e bem judiada pelo tempo, tava mais pra corpo de gato do que leão se comparada com o esplendor das pirâmides.

De Gizé, fomos levados para o Museu Egípcio no Cairo, um museu vasto e magnífico que também é conhecido por guardar os tesouros encontrados na tumba do faraó Tutankhamon. Fizemos uma parada rápida em um “museu do papiro” que nada mais era do que uma loja, onde nos explicaram brevemente como os egípcios fabricavam o artigo utilizado durante a Antiguidade para a escrita. Saímos de lá tendo que comprar um papiro meio que contra a nossa vontade, mas levamos um dos modelos mais baratos após muita pechincha. A última parada do dia foi no famosíssimo mercado Khan el Khalili, um imenso bazar muito louco que mais parecia um labirinto no centro da cidade. Fumamos uma shisha (um tradicional cachimbo de água) e tomamos chá de hortelã junto com o nosso guia que depois nos levou de volta para o aeroporto onde pegamos o vôo de volta à Luxor.

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Entrada do templo de Medinat Habu

Ainda tivemos tempo de retornar ao West Bank para visitar o Vale dos Nobres, o Templo de Ramasseum e Medinat Habu, onde ouvimos estórias muito interessantes e visitamos tumbas e templos impressionantes.

Esta foi, sem sombra de dúvida, a minha melhor viagem. E que viagem!

3 comments Maio 3, 2009

A queda do “império” britânico

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

A economia do país está em queda livre desde o ano passado. Após mais de uma década de crescimento progressivo, a bolha finalmente estourou e pegou todo mundo desprevenido.

A ponta do iceberg apareceu em Setembro de 2007 quando o Northern Rock, um dos bancos mais tradicionais na área de financiamento de imóveis, foi pedir ajuda ao banco central para continuar operando no mercado após sofrer o impacto da crise “sub-prime” iniciada nos Estados Unidos. Receosos, bancos começaram a parar de emprestar para outros bancos e reduziram o crédito oferecido aos clientes, gerando o chamado credit crunch.

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O começo do fim – funcionário da Lehman Brothers de Canary Wharf em Londres deixa o escritório com seus pertences em Setembro do ano passado

Um ano nervoso se seguiu até que o gigante banco americano Lehman Brothers pediu concordata. A filial inglesa do banco que tinha sede no distrito financeiro de Canary Wharf teve seus cinco mil funcionários desempregados da noite pro dia. A partir daí começou a quebradeira. Outros bancos de investimentos seguiram o mesmo destino. O pânico afetou as bolsa de valores do mundo inteiro e o valor das ações dos maiores bancos comerciais britânicos como o Royal Bank of Scotland e Lloyds TSB começaram a despencar. O governo britânico foi obrigado a resgatar estes bancos ao comprar ações para evitar uma catástrofe nacional.

Paralelamente, o governo começou a baixar drasticamente a taxa básica de juros numa tentativa de manter a economia aquecida. De 5.75% em Julho de 2007, foi caindo, caindo até atingir 0.5% no início deste mês, a menor taxa da história. Essa baixa dramática dos juros fizeram com que a libra esterlina, que foi sempre considerada uma das moeda mais fortes do mundo, se tornasse menos atraente e despencasse chegando a valer quase o mesmo que o Euro.

Desde Janeiro, o país está oficialmente em recessão. Os bancos que até dois anos atrás ofereciam mortgages (financiamento imobiliário) de até 125% do valor do imóvel, agora não o fazem por no mínimo 75%. Em consequência, o número de imóveis vendidos começou a cair desde 2007 assim como o preço médio de venda. O mercado imobiliário esfriou e muita gente que se endividou para comprar propriedade nos últimos anos hoje possui um financiamento que custa mais do que o atual valor do imóvel, o chamado negative equity.

Apesar da queda da taxa de juros, os bancos estão mantendo as taxas altas e dificultando a vida dos clientes que precisam renovar seus financiamentos ou pedir empréstimo pessoal. Há milhares de famílias enfrentando dificuldades para manter os pagamentos em dia. Muitas empresas em diversos ramos como o da construção civil, bancos e imobiliárias estão fechando as portas e a taxa de desemprego passou da marca dos dois milhões nesse mês, maior índice dos últimos doze anos. Com o desemprego, tem muita gente inadimplente que já perderam suas casas e outro tanto com a corda no pescoço.

No noticiário, é só notícia ruim. Só doom & gloom como dizem por aqui. O governo culpa a ganância dos bancos, que por sua vez culpa o governo por não ter regulado o sistema bancário. A população culpa o governo por ter permitido a situação ter chegado a esse ponto e também culpa os bancos por terem oferecido tanto crédito para quem obviamente não tinha condições de pagar. É o tal jogo de ficar jogando a culpa nos outros e dizendo que não tem culpa de nada, sendo que todos têm culpa em parte.

No meio disso tudo, as poucas coisas boas estão passando despercebidas. O preço dos imóveis, que até pouco tempo chegou a níveis absurdos, está descendo a um patamar mais realístico para aqueles que estão querendo comprar seu primeiro imóvel. O custo de um financiamento de imóvel nunca esteve tão barato, desde que você tenha o depósito necessário. O preço do combustível caiu. Supermercados e restaurantes tipo fast-food estão prosperando e contratando mais do que nunca. As grandes lojas do varejo estão em plena guerra pelo consumidor ao estender liquidações e oferecer super descontos. As grandes cadeias de restaurantes estão com várias promoções do tipo dois pratos pelo preço de um.

Pessoalmente, ainda não cheguei a sentir os efeitos da crise e tenho fé que escaparei ilesa. A empresa onde eu trabalho cortou 10% do quadro de funcionários após sofrer forte queda no volume de vendas, mas eu ainda estou ali firme e trabalhando com a cabeça baixa para que eu não dance se houver mais um corte.

Para os que estão querendo vir para cá, talvez esse não seja o melhor momento. Digo talvez porque tem gente que mesmo com a crise resolve vir e acaba se dando bem. Sei de muitos brasileiros vivendo em Londres tendo dificuldade de encontrar emprego, então imagino que para os que estão pra vir, as coisas ficam ainda mais difíceis.

Assim como ninguém previu a chegada da crise global, ninguém saberá quando ela vai acabar. A única certeza é de que assim como ela chegou, um dia ela se vai e tudo deve voltar ao normal. Mais dia, menos dia.

2 comments Março 20, 2009

A hora de ir embora

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

Eu sou da firme opinião de que tudo tem sua hora. Não adianta agonizar. Uma hora simplesmente chegará o final da sua estadia, exceto é claro para aqueles que acabam permancendo para sempre. De mala e cuia você irá para o aeroporto com o coração apertado e em algumas horas será recebido com festa pela sua família seja lá de que parte do mundo acabou de chegar.

Quando cheguei em Londres em Abril do ano 2000, vim com passagem de retorno marcada para o final de Julho. Acontece que no dia do retorno, fui ao aeroporto, peguei o avião e desembarquei em Lisboa onde deveria apenas ter feito a conexão para o vôo pro Brasil. De mochilão nas costas, fui fazer um giro pela Europa e no final retornei a Londres. Tinha em mente voltar ao Brasil no final daquele ano para passar o Natal com minha família. No final daquele ano, estava passando o Natal não no Brasil, mas em Londres mesmo. Estou aqui desde então. Antes de vir pra cá, jamais imaginei que um dia eu iria morar no exterior.

Por mais que tentemos planejar nossas vidas, esquecemos de incluir fatores externos que acabam nos fazendo mudar de idéia. No meu caso, três meses passaram voando e fazia mais senso pra mim estender meu retorno para que pudesse fazer algumas viagens e mais outros cursos de inglês. Acabei me enrolando e hoje já não sei mais se voltarei definitivamente pro Brasil. Não faço mais planos. A idéia é permanecer por aqui por enquanto, mas dependendo do que acontecer, talvez eu volte. Não digo que não voltarei e não digo que fico aqui para sempre. Se estourar uma terceira guerra mundial ou uma epidemia se alastrar pela Europa, eu tô pegando o primeiro vôo pra São Paulo!

Eu adoro morar em Londres, amo essa cidade e amo essa nação. Minha vida no momento é aqui. Já acostumei a dirigir do lado contrário. Tem uma estação de metrô a um minuto da minha casa que me leva pra qualquer parte da cidade ou do país. Moro em frente a um parque imenso, com parquinho e vários campos de futebol e rugby. Não sei se posso viver sem a TV britânica. Nada me diverte mais do que o humor inglês. Para o meu próprio horror, já acostumei até com o tempo frio e nublado daqui.

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Cena do filme Um Lugar Chamado Notting Hill com Hugh Grant e Julia Roberts

Vivo na zona leste, próximo de onde está sendo construído o complexo para as Olimpíadas de 2012. É um lugar que não tem nada a ver com Notting Hill (foto)um dos bairros mais charmosos da cidade . Trata-se de uma das áreas mais pobres da cidade, porém o único lugar onde eu poderia comprar um apartamento. Estou rodeada de gente que vive dos benefícios do governo. O que mais tem por aqui é loja de kebab, frango frito e fish & chips e também as lojas que vendem tudo por uma libra. Tenho um padrão de vida relativamente inferior ao que levava no Brasil. Enquanto lá eu era classe média, aqui faço parte da chamada working class. Mas não me importo pois sou feliz aqui com tudo o que tenho conquistado até agora.

Brasil pra mim, só pra passar as férias. Ir ao dentista, visitar a família e matar a saudade das coisas boas como ir comer no rodízio, passear na feira e comer pastel com garapa, encher o bucho de coxinha, pão de queijo e guaraná, essas bobeiras. Porém, quando passa a euforia dos primeiros dias, eu começo a sentir falta das minhas coisas em Londres. Da minha cama, banheiro, cozinha e até começo a contar quantos dias faltam para o vôo da volta. Coisas pequenas começam a me irritar profundamente, como ver a cara daqueles velhos políticos sem vergonha na televisão, aquele monte de moleque querendo lavar o parabrisa no cruzamento, chuva de verão que alaga tudo de uma hora pra outra e os preços absurdo das coisas que se vendem nos shopping centers. O contraste é um choque muito grande e eu me pego perguntando a mim mesma se seria capaz de voltar a morar em São Paulo novamente após tantos anos fora.

Sei que faço parte de uma minoria. Tenho a opção de poder ficar ou poder voltar. A maioria dos brasileiros que vem pra cá acaba retornando. Quase todos os brasileiros que conheci por aqui já voltaram. Vi muita gente que não via a hora de retornar e também vi gente que estava voltando não por opção própria mas por causa das circumstâncias. Conheci pessoas em situação irregular e tenho amigas que pagaram para casar com europeu para poder permanecer no país. Ou seja, se for para você voltar, você voltará um dia. Senão, de uma forma ou outra você ficará, mesmo que seja na marra.

É da natureza humana sempre achar que a galinha do vizinho é mais gorda. Acredito que antes de se tomar a decisão de voltar ou não, é importante pesar bem todos os prós e contras na balança da maneira mais objetiva possível. Uma vez que você resolveu voltar, vá em frente e não olhe pra trás.

2 comments Março 6, 2009

Convivendo com os ingleses

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra
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Praia de Brighton “pra inglês ver” com o pier ao fundo – coberta de pedrinhas, água gelada e muito vento.

Pouco depois que cheguei na Inglaterra, fui morar por quatro semanas na casa de uma família inglesa na cidade de Brighton ao sul da Inglaterra. Escolhi esse lugar pela proximidade de Londres (45 minutos de trem) e pelo fato de o lugar ser à beira-mar. O curso de inglês que paguei não era tão caro como os de Londres e eu queria vivenciar o modo de vida do povo britânico e aprender a me virar em inglês.

A família que a escola arranjou já estava habituada a receber estudantes estrangeiros. Assim que cheguei, já havia uma outra menina chinesa e logo depois veio uma outra da Malásia. Tive sorte de pegar o maior quarto da casa, que na verdade era a sala de jantar que eles não usavam. O casal e as três filhas pequenas dormiam todos amontoados em um dos quartos no andar de cima. Tudo isso porque o único que trabalhava ali era o pai, Andy Aldridge, um jornalista free-lancer que escrevia sobre críquete para uma revista especializada.

Andy era a cara do ator John Malkovich. Tomava chá o dia inteiro e sua única tarefa doméstica era lavar os pratos após a janta. Dizia que lavar prato era uma terapia que o distraía dos problemas. Não cansava de louvar os saquinhos de chá to Tesco (rede de supermercados) que segundo ele custavam apenas dois pences cada um. Helen, sua esposa, também sempre me tratou muito bem, mas era com Andy que eu gostava de papear e praticar inglês. Das crianças, apenas tive contato com a menina mais velha, Louise, que de vez em quando vinha bisbilhotar no meu quarto. Ela ouvia o disco do Steps o dia inteiro e eu acabei virando fã (a banda já não existe mais).

A casa deles era grande com um belo jardim nos fundos e eles tinham um carro Toyota vermelho. Porém, convivendo com eles percebia-se que eles estavam passando por um certo aperto. O café-da-manhã não tinha nada de ovos com bacon e suco de laranja e sim pão de forma pra torrar e comer com geléia acompanhado de chá. O jantar era um filé de frango ou peixe empanado, daqueles que se compra já pronto e congelado e se esquenta direto no forno, com um pouco de salada. Hoje sei que não apenas a maioria das famílias britânicas com crianças passa por dificuldades financeiras, como também grande parte das pessoas se alimenta mal. Tinha dado de cara com estes tristes fatos já ali no comecinho da minha jornada.

O banheiro daquela casa me traz muitas recordações. A única coisa boa era o chuveiro elétrico que eu podia controlar a temperatura da água. Só que o chuveiro era dentro da banheira. Não é normal ter box de chuveiro no banheiro e sim chuveiro na banheira. Aliás, o normal é não ter chuveiro e sim apenas a banheira com uma mangueirinha. Felizmente havia uma cortina pra evitar da água cair fora da banheira pois havia carpete no chão do banheiro. Isso mesmo, um carpete bege encardido que eu evitava de pisar diretamente ao usar minhas sagradas sandálias Havaianas. E ali próximo da privada, ao invés do bidê que não existe em banheiro algum por aqui, havia uma gaiola onde ficava o porquinho-da-índia. Exatamente, todo dia o bendito me via pelada. Acabei acostumando e havia dias que eu até esquecia da existência do infeliz.

Além do porquinho-da-índia, também havia na casa um gato que não cheirava nem fedia. Animais de estimação são extremamente comuns no Reino Unido sendo que mais da metade das residências possui ao menos um animal.

Outra coisa que hoje me lembro é que eles tinham uma mesa na sala onde todos jantávamos juntos. Mas nem todos os lares são assim. Talvez por falta de espaço ou de costume, muitos optam por comer sentados no sofá assistindo televisão o que eu pessoalmente acha muito estranho.

Felizmente os Aldridges não eram viciados em nenhum programa televisivo em particular. Se bem que naquela época o meu inglês era tão fraco que eu nem entendia muita coisa mesmo. Agora que entendo quase tudo, assisto alguns reality shows como o X-Factor ou Dancing on Ice (não, eu nao assisto o Big Brother), além dos excelentes noticiários, documentários e programas culinários. Novela eu já não assistia no Brasil, muito menos assisto as daqui. Mas elas são extremamente populares entre os que jantam em frente ao sofá. Existem várias para todos os gostos e uma diferença entre as daqui com as do Brasil que eu notei é que as daqui não tem fim. A mais popular, Eastenders, vem desde 1985, enquanto Coronation Street é a mais antiga já tendo passado a marca de 7000 episódios, sendo que o primeiro episódio foi ao ar em Dezembro de 1960.

Outras impressões

Dentes feios e amarelados são a marca registrada dos ingleses. Estou generalizando logicamente, mas a carência de bons dentistas deve explicar o porquê dos péssimos dentes de tanta gente por aqui. Enquanto as celebridades fazem branqueamento, o resto do povo fica de boca fechada. Não se trata de insatisfação ou tristeza como os nossos vizinhos europeus; é boca feia e cheia de buraco mesmo. Além do título de nação dos dentes feios, eles estão quase batendo os Estados Unidos na questão da obesidade. Infelizmente não estou exagerando, esse é um problema nacional para o sistema de saúde público.

Pra fazer justiça, devo admitir que sequer imaginava o quão generoso é o povo desse país. Não apenas os ricos fazem grandes doações às instituições de caridade como grande parte da população em geral. Vi com meus próprios olhos quando trabalhei por dois anos para uma charity voltada aos idosos como as doações chegam de toda parte. Havia desde quantias quase insignificantes de quem tem poucas condições até heranças milionárias, tudo isso em forma de imóveis, cheque, dinheiro, internet, débito automatico, até mesmo selos. Eles acabam sendo tão generosos que mal sabem cuidar das próprias contas. Gastam mais do que ganham e se endividam até o pescoço usando cartão de crédito.

Outra característica bem britânica são as boas maneiras. Falam com a voz relativamente baixa comparado aos nossos padrões tupiniquins, sempre dizem thank you e não pedem nada sem incluir um please. Respeitam as filas. Se tiverem que esbarrar em você, já avisam com antecedência com um excuse me. Caso tenham esbarrado sem querer, imediatamente dizem sorry (isso não se aplica no transporte público). São pessoas geralmente muito pacientes, reservadas e ao mesmo tempo agradáveis.

No entanto, jamais espere ser recebido com um sorriso e um bom dia ou boa tarde ao entrar em qualquer comércio para fazer compras. Em alguns poucos lugares, talvez te perguntarão se você precisa de ajuda e o farão se você precisar, mas não espere muita boa vontade dos vendedores de loja. Quer algo, compre; não quer, adeus.

É muito difícil arrancar um sorriso desse povo. Até mesmo quando eles acham algo engraçado, o que não é difícil pois o humor inglês está em toda parte, eles dirão oh, that’s funny sem ao menos sorrir. Existe gente feliz e sorridente, o problema é que as pessoas não andam por aí rindo à toa. A única maneira infalível de ver gente feliz é ir ao parque em um dia de sol. Nem precisa fazer calor. Eles são tão carentes de sol, coitadinhos, que às vezes me pergunto porquê deixei meu Brasil ensolarado pra trás.

O tempo em si é um passatempo nacional. Há uma obsessão geral em se informar sobre qual será a previsão do tempo, sendo que o céu daqui é nublado a maior parte do ano. Porque se chover, eles estarão devidamente armados com seus guarda-chuvas. Se for fazer sol no fim-de-semana, eles irão programar um passeio obviamente ao ar livre. Muitos minutos são dedicados à previsão do tempo no noticiário diariamente, que é dividido em previsão nacional e local, minuciosamente explicado e demonstrado com tomadas externas dos pobres apresentadores geralmente encharcados ou batalhando contra o vento. Conversa fiada no elevador ou na fila do bebedouro quase sempre será inevitavelmente sobre o tempo ou, se você tiver sorte, sobre o que você fez ou fará no final de semana.

Sim, talvez aquele que nunca esteve por estas bandas vai estar achando que esse povo é meio estranho. Nas primeiras impressões, eles parecem introvertidos e excêntricos. A não ser que você seja lindo(a) de parar o trânsito, as pessoas normalmente evitam de te olhar nos olhos. Elas não gostam de invadir ou de ter o seu personal space invadido, ou seja, não gostam que te encarem ou que cheguem muito perto deles.

Com o tempo, você vai se habituando à maneira de ser do povo britânico. Se acabar morando por muito tempo aqui como eu, vai acabar como eles: dizendo sorry por qualquer coisa, comendo torrada com feijão e abusando do sarcasmo.

Só não vale ter dente amarelado.

7 comments Fevereiro 4, 2009

Merry Christmas

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

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Natal na Regent's Street em Londres

O período que antecede a chegada do Natal em Londres coincide com a chegada do frio pra valer, dias mais curtos e muita correria de gente comprando presentes. Nas ruas, os casacos mais pesadas enfim dão o ar da graça, assim como as luvas, cachecóis coloridos, botas e gorros. Até aí, nada de mais alguém aí deve estar dizendo. Não é nada fácil descrever como a atmosfera da cidade se altera. O humor das pessoas muda com tanta coisa a se fazer que nem o tempo ruim é capaz de tirar a ansiedade não apenas das crianças que ganharão milhares de brinquedos novos como também dos adultos que se reunirão com seus entes queridos para celebrar as festas do fim do ano.

O Natal por aqui é assunto muito sério, tanto no sentido comercial como simbólico. Os ingleses costumam se preparar com bastante antecedência e cada indivíduo tem seu plano traçado de como passará cada dia do mês de Dezembro.

As principais avenidas da cidade são cuidadosamente iluminadas e as vitrines das lojas decoradas com enfeites natalinos. Cada uma das ruas mais famosas promove um evento especial com shows musicais e celebridades são convidadas apenas para acender as luzes, com direito inclusive a contagem regressiva.

É nessa época também que ocorrem as tradicionais festas de Natal dadas pelas empresas aos funcionários, além dos almoços natalinos entre colegas de trabalho. Organiza-se o secret santa (amigo secreto) entre amigos ou familiares e cartões de Natal são enviados e recebidos aos mais chegados. Os principais reality TV shows vão chegando ao fim (X-Factor e Strictly Come Dancing) enquanto começam a pipocar os programas de como preparar a ceia de Natal.

No metrô, apesar do frio nas ruas, o calor nas plataformas e dentro dos trens é um sufoco só. O aperto fica ainda pior com as sacolas de compras cheias de presentes que as pessoas levam pra casa. É proibido por lei o consumo de álcool no transporte público mas nada impede os passageiros de pegar o metrô já bêbados. Enquanto normalmente pode-se ler um livro tranquilamente no caminho de volta pra casa sem ser perturbado, nessa época o metrô fica mais barulhento com muita gente bêbada além do normal.

Mesmo com a crise financeira internacional afetando o Reino Unido drasticamente, alguém que não acompanha o noticiário jamais perceberá ao passear pela Oxford Street que o país se encontra à beira de uma recessão. Milhares de pessoas endividadas até o pescoço fazem questão de gastar o que for necessário apenas para ter o prazer de passar as festas da melhor maneira possível, mesmo que isto signifique contas bancárias no negativo e pagamento de juros estratosféricos no cartão de crédito. Não existe o conceito do cheque pré-datado por aqui e também não se parcela em três ou dez vezes sem juros, mas existem outras tantas formas de se endividar através de empréstimo bancário e ofertas de cartão de crédito.

A correria se alastra pelos aeroportos, estradas e estações de trens em toda parte com gente ou fugindo do frio para um canto quente mundo afora ou viajando para passar com a família que mora em outra cidade ou no exterior. Não costuma nevar em Londres durante o Natal, mas mesmo assim o mau tempo provoca problemas de transporte e transtorno aos viajantes.

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Christmas Stockings

Os que vão receber convidados preparam a decoração da casa e a comida a ser servida. Supermercados lotam e prateleiras se esvaziam rapidamente. Uma ceia de Natal não pode deixar de ter um bom peru assado com molho, couve-de-bruxelas, mince pies (tortinhas de geléia de frutas), o Christmas Pudding e muito, mas muito álcool mesmo. O mulled wine, o equivalente ao nosso quentão porém feito com vinho tinto, é bem popular no inverno mas bebe-se praticamente qualquer coisa que contenha álcool. Embaixo da árvore de Natal, os presentes devem estar todos já embrulhados e aguardando o dia 25 para serem abertos. Onde há crianças, penduram-se os stockings na lareira. São meias vermelhas gigantes que o Father Christmas (a versão inglesa do Santa Claus) encherá de presentes ao descer pela chaminé.

Enfim, é Natal!

Tudo começa a se acalmar na noite do dia 24. O comércio fecha e o trânsito diminui. Os mais religiosos vão à igreja para ouvir o coral natalino das crianças e logo em seguida para a missa da meia-noite. Não há como no Brasil toda aquela expectativa para chegada da meia-noite para os abraços e troca de presentes. Todos vão dormir normalmente, exceto pelas crianças que mal podem esperar pela manhã do dia seguinte. É que o Father Christmas vai estar passando pra deixar os presentes.

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Christmas Crackers

No dia seguinte, após a troca de presentes as famílias se reúnem para o Christmas Dinner que na verdade é o almoço de Natal. Durante a refeição, estouram-se os Christmas Crackers. São tubos de papel embrulhados no formato de uma bala gigante onde duas pessoas puxam uma de cada lado até que um lado cede e há uma pequena explosão como se uma bombinha tivesse estourado. Dentro do tubo, encontra-se um presentinho que pode variar dependendo de quanto se pagou pelos crackers, um papelzinho com uma piada e uma coroa de papel que todos colocam na cabeça. Às três da tarde, assiste-se na televisão ao discurso da rainha.

O dia 26 também é feriado, o chamado Boxing Day. Muitos aproveitam para passar esse dia com a outra parte da família, assistindo futebol ou indo às compras. É nesse dia que as lojas oficialmente começam a liquidação das roupas de inverno.

A passagem do Ano Novo também é comemorada com fogos de artifício, porém não há nada daquela expectativa da chegada do Natal. O frio faz com que a maioria prefira passar a virada dentro de casa assistindo televisão com a família.

Feliz Natal e um bom 2009 a todos!

1 comment Dezembro 23, 2008

Os brazucas de Londres

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

O dia em que o Brasil derrotou a Alemanha e ganhou a Copa do Mundo no Japão em 2002 foi um dos mais felizes da minha vida. Não só pela vitória em si, mas porque naquele dia nunca tinha sentido tanto orgulho de ser brasileira. Pra comemorar, a coisa óbvia a se fazer era vestir a camisa amarela da seleção e ir pra Trafalgar Square, no centro de Londres. Chegando lá, não havia apenas uns gatos pingados ou uma galerinha. O lugar estava completamente tomado por milhares de brasileiros, todos cantando, pulando, sambando e festejando a ocasião em plena harmonia.

Quando se vive no exterior, o sentimento em relação ao Brasil muda de uma forma ou de outra. No meu caso, me tornei um pouco mais patriótica e hoje aprecio muito mais os valores da nossa cultura, enquanto antes de vir para Londres costumava achar que tudo de fora era melhor ou mais interessante. Certamente cada caso é um caso: há os que radicalizam quando chegam aqui ao achar que tudo no Brasil é melhor, enquanto há os que aderem à cultura local de vez preferindo esquecer as coisas boas do nosso país. Mas naquela tarde na Trafalgar Square, o sentimento de todos era o mesmo: o orgulho de ser brasileiro.

Não há fontes oficiais sobre o número de brasileiros vivendo no Reino Unido. O Home Office, órgão que controla a imigração, admitiu recentemente não ter a menor idéia do número de imigrantes no país (sim, existe muita incompetência por estas bandas). Independentemente disso, não há dúvidas de que mesmo com o aumento das restrições à entrada de brasileiros, deportações e pessoas vivendo na ilegalidade, o número de brasileiros vivendo não só em Londres como em outras partes do Reino Unido continua crescendo a cada ano que passa.

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A revista Leros circula em Londres gratuitamente desde 1991.

Na época em que eu estudava inglês, havia um restaurante na Oxford Street chamado Feijão do Luís que ficava no fundo de uma loja de conveniência. Era um cantinho com um balcão e umas poucas mesinhas onde sempre havia brasileiros indo e vindo. Eu passava ali de vez em quando pra pegar uma cópia da Revista Leros (foto ao lado) ou matar a fome com uma coxinha frita “com requeijão da Dinamarca” como eles gostavam de anunciar. Um dia após assistir a um jogo amistoso entre o Brasil e a Inglaterra, resolvi comer uma feijoada no Luís já que estava ali perto (o jogo terminou empatado em 1×1). A feijoada era boa, incluía couve e farofa e vinha com uma lata de guaraná e um pão de queijo, tudo ao custo de apenas £5. Sorte que cheguei cedo pois dali a pouco uma fila que saía até a rua se formou com gente vestida com a camisa da seleção pra comer a tal da feijoada. Infelizmente o lugar não existe mais. Abriram um restaurante por quilo do outro lado da rua onde nunca cheguei a me aventurar. Bons tempos.

Não estou dizendo que os brasileiros só aparecem quando tem jogo do Brasil ou que eles se concentram na Oxford Street. Ontem mesmo fui fazer compras de Natal na Woolworths perto de casa, passei uma hora lá e perdi a conta de quantas vezes ouvi a voz de brasileiros. No supermercado, no metrô, no parque, nos restaurantes, nas ruas distribuindo jornal, literalmente em toda parte que vou há brasileiros. Até quando faço minhas viagens pela Inglaterra ou pela Europa, sempre topo com eles, inclusive onde menos se imagina. Não há como escapar; estando em Londres, você apenas se sentirá solitário se não sair de casa. Veja bem que sei perfeitamente distinguir entre o português de Portugal e o do Brasil. Também há horrores de portugueses ou africanos que falam português vivendo em Londres, mas me refiro aqui especificamente aos brasileiros.

Hoje em dia, não tenho lá muitos amigos brasileiros em Londres. A maioria voltou para o Brasil, outros foram para outras partes do mundo e dos poucos que restaram, apenas mantenho contato com alguns. De todos os que conheci durante todos estes anos, alguns jamais me esquecerei pela ajuda que me deram assim que cheguei. Os cariocas Paulo e Jorge me ajudaram no meu primeiro silver service em pleno Royal Albert Hall e mantive contato com eles até eles partirem de volta ao Brasil. Viviam reclamando de Londres, estavam de saco cheio daqui e resolveram voltar para o sol e praia do Rio. Anos depois, reencontrei o Jorge de volta a Londres trabalhando no restaurante da academia onde eu malhava. Acho que deve ter sentido falta das libras esterlinas. A catarinense Margarete hoje não retorna meus convites pra se encontrar comigo, mas se não fosse por ela eu não teria onde ficar na minha primeira semana em Londres. Já o paulistano João Guilherme conheci na Callan School. Lembro que ele tinha acabado de chegar em Londres com £1000 no bolso e já tinha gasto a metade logo na primeira semana. Fomos juntos à uma agência de emprego que um amigo dele tinha recomendado e consegui muito trabalho bom por meio daquela agência. Encontrei-o novamente após um bom tempo justamente no dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Todo tatuado e cheio de piercings, só me lembro que o papo dele eram as tais das raves. Estes são apenas alguns dos brazucas que conheci pelo caminho. Não fosse por eles, talvez eu nao estaria mais aqui hoje escrevendo esse post. Ah, não poderia deixar de citar o Rafael, colega de classe na universidade em São Paulo. Após anos sem contato, trombei com o infeliz em pleno Hyde Park em Londres ao passear ali com uma amiga. Ele também um dia cansou, arrumou as malas e se mandou de volta pra terrinha.

Eu pessoalmente passo incógnita pois ninguém que me vê sequer imagina que sou brasileira. Portanto costumo ficar quieta quando vejo ou ouço brasileiros ao meu redor, a não ser que a ocasião permita de me apresentar, para a surpresa total da outra pessoa que geralmente abre um sorriso ao ver que falo português do Brasil. Sei dizer se uma pessoa é ou não é brasileira só de olhar com uma margem de erro mínima. Nem precisa abrir a boca; já sinto o cheiro de longe. Percebo que alguns estão bem estabelecidos e fico feliz quando leio casos de brasileiros que se deram bem por aqui. Já quando vejo um conterrâneo com uma cara sofrida, geralmente de tanto trabalhar, ou desorientada aparentando ter chegado a pouco tempo, sinto uma certa compaixão ao lembrar que um dia estive em uma situação parecida. Mas na maioria das vezes, ouço a conversa alheia e me faço de desentendida, mesmo quando a vontade é de iniciar uma conversa pra saber de onde a pessoa é, se há algo que eu possa ajudá-la ou mesmo de até chegar e dar um abraço no completo desconhecido(a). Acabo ficando na minha. Afinal, assim como no Brasil, em Londres ou em qualquer parte do mundo é cada um pra si e Deus para todos.

1 comment Dezembro 6, 2008

Os desafios da língua inglesa

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

Edição Definitiva

Ao contrário do que diz o título, esse livro dá dicas de como evitar os erros mais comuns de uma forma simples e divertida - Como Nao Aprender Ingles de Michael A. Jacobs

De onde surgiu a língua inglesa? Uma longa história que talvez seja mais prático você pesquisar no Google se estiver realmente interessado, do que eu tentar explicar com o meu fraco vocabulário desperdiçando esse espaço precioso com tamanha chatice na minha opinião.

O inglês é a língua que boa parte do mundo é “forçada” a aprender. Felizes são aqueles que já nascem falando ou não têm necessidade de falar em inglês. Imagine quantos cursos existem por aí, quantos se tornam professores e quantas pessoas gastam tempo e dinheiro só pra aprender a bendita língua?

O motivo de eu estar hoje em Londres vem disso. Um dia deu na telha que eu queria trabalhar de comissária de bordo então fiz o curso e tirei a licença. Pra conseguir um trabalho em uma companhia aérea mais rapidamente, resolvi investir minha poupança em uma viagem para Inglaterra para aperfeiçoar meu inglês. Acabei ficando e hoje dou graças a Deus por não ter me tornado comissária: não só odeio voar como também não uso mais sapatos de salto alto.

Assim que cheguei, passei quatro semanas estudando e morando com uma família inglesa em Brighton (45 minutos de trem de Londres). Gostei muito, mas passou muito rápido. Em Londres, estudei inglês por dois anos. Enquanto ainda tinha algum dinheiro, estudei na Callan School na Oxford Street. Mais cara comparada com as outras escolas da época, ela prometia um aprendizado mais rápido baseado em um polêmico método de repetição. Os professores eram todos muito bacanas, as classes eram incrivelmente divertidas, mesmo apesar do tédio de repetir as mesmas frases, e a atmosfera geral da escola era ótima. Mas quando atingi um certo nível e meu dinheiro começou a acabar, tive que procurar uma outra escola. Acabei na Evendine College (que hoje não existe mais) para onde me arrastava todo dia pois o lugar era meio deprimente. Os professores eram bons, mas a classe era só eu e alguns gatos pingados da Polônia que a maioria dos alunos só se matriculava naquela escola por causa do visto de estudante.

Hoje em dia, falo um inglês respeitável e não tenho maiores problemas em me comunicar embora volta e meia ainda dê as minhas escorregadas. Há pouco tempo troquei fireplace por fireworks ao elogiar a lareira da casa de uma amiga. Esse tipo de coisa acontece, não tem o que fazer.

Observando as pessoas que falam inglês como segunda língua, todo mundo erra. Até mesmo os próprios ingleses, muitos nem sabem falar direito, muito menos escrever corretamente, acreditem em mim. Muitos são incapazes de falar uma frase sem nenhuma das seguintes palavras: great, basically, really, amazing, brilliant, fantastic, crap, rubbish etc. A pobreza de vocabulário impera na linguagem falada no dia-a-dia.

Existem tantos sotaques diferentes pelo mundo afora que não vale a pena perder tempo com isso. Concentre-se em falar claramente, sem pressa e com a pronúncia correta pois o importante é ser compreendido. Não tenha vergonha de errar ao falar baixo pois você pode até estar falando certo, mas ninguém vai entender o que voce está querendo dizer. Em um lugar cheio de imigrantes como Londres, o sotaque é um detalhe irrelevante. Não interessa quantos anos você estudou ou morou na Inglaterra ou Estados Unidos, aceite o fato de que você sempre terá sotaque.

Há pouco tempo, assisti uma entrevista com o cineasta brasileiro Walter Salles no HardTalk da BBC2, um programa do estilo Marília Gabriela onde o entrevistador coloca o entrevistado na parede e o metralha com as questões mais complicadas de se responder. Com um inglês perfeito, ele fez bonito mas apenas pecou no sotaque americano do qual não tem culpa nenhuma. Se antes tinha sempre o Rubinho Barrichello dando entrevista para a TV inglesa, agora tem o Felipe Massa, ambos com o sotaque brasileiro. E o Felipão, atualmente técnico do Chelsea, já começou a dar entrevista em inglês.

Para os que estão pensando em ir estudar inglês no exterior, qualquer tempo livre pode ser usado para praticar o inglês:

  • Compre livros em inglês, de preferência sobre algum assunto do seu interesse que te prenda na leitura.
  • Assista a programas em inglês se voce tiver TV a cabo: noticiário da BBC ou CNN, seriados tipo Seinfeld ou Friends, programas de culinária tipo Jamie Oliver etc.
  • Use google.com ao invés de google.com.br. Tente evite usar páginas brasileiras para se habituar a navegar nos sites em inglês.
  • Matricule-se num curso ou se puder pague aulas particulares para aumentar a motivação, mas não deixe de ir às aulas por preguiça disfarçada de falta de tempo. Se for para gastar dinheiro à toa, melhor economizar para a viagem em si.

Para os que acabaram de chegar e estão apanhando com os ingleses que “falam com uma batata quente na boca”, o mesmo se aplica:

  • Assista a TV inglesa que é infinitamente melhor que a TV brasileira. Não se restrinja aos canais principais. Como já sugeri anteriormente, compre o aparelho do Freeview que custa pouquíssimo para ter acesso a dezenas de canais gratuitos e você pode adicionar legenda para te ajudar a entender melhor o que está passando.
  • Leia os jornais diariamente. Se você não quer comprá-los, servem os jornais gratuitos que também quebram o galho.
  • Caso você já esteja frequentando alguma escola, não deixe de tentar prestar exames como o IELTS ou os exames da Cambridge University.
  • Não fuja dos brasileiros mas também não grude neles como se sua vida dependesse deles. Não perca oportunidades de conhecer pessoas de outras nacionalidades e de carona praticar o inglês.

Aprender qualquer língua é um desafio permanente, ingrato, caro e sem fim. Sempre haverá quem fale melhor, mas felizmente sempre haverá quem fale pior do que você. Por melhor que você fale ou entenda, sempre haverá alguma palavra que voce ainda não conheça. Por mais que você acerte, será impossível não errar. No final das contas, o que realmente importa é entender e ser entendido. Indeed!

Alguns sites úteis:

http://www.britishcouncil.org/learnenglish.htm

http://www.bbc.co.uk/worldservice/learningenglish/

7 comments Novembro 14, 2008

Paz no meio do caos

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

O Hyde Park é o maior parque do centro de Londres cobrindo 2.5 km² juntamente com o Kensington Gardens

Meu lugar preferido em Londres sem sombra de dúvida é o Hyde Park. Uma escolha não muito original, mas tive a sorte de ter morado nas redondezas por algum tempo e de ali ter passado muitas tardes de verão memoráveis.

Não estou dizendo que não se deva visitá-lo no inverno, muito pelo contrário. O lugar é bem frequentado o ano inteiro. Quando neva, muitos vão ao parque para brincar na paisagem embranquecida. Na primavera, acredito que o parque esteja no seu primor com os lindos canteiros de flores cuidadosamente arranjados. E no outono, a paisagem muda com a folhagem das árvores adquirindo diversas tonalidades antes de cair de vez. No entanto, é mesmo no verão que a coisa ferve .

Milhares de londrinos desesperados por um pouco de sol invadem o parque trazendo consigo cestas de piquenique, um livro, uma bola ou um filtro solar para passar o dia esparramado sobre a grama. Grupos de pessoas se reúnem para jogar voleibol, hockey sobre patins ou arremessar bumerangues. Casais passeiam de mãos dadas, crianças fazem fila para comprar sorvete e rola muita paquera entre os jovens. Turistas fotografam os esquilos e idosos alimentam os patos. Há dias em que partes do parque fecham para eventos, mas nunca falta espaço para ninguém.

Onde no passado membros da família real se divertiam caçando animais selvagens, hoje há restaurantes, quadras de tênis e futebol, concertos de rock,  trechos para cavalgada e muito mais. É permitido andar de bicicleta, patins ou skates e há banheiros públicos próximos às entradas. Veja bem que as cadeiras reclináveis são alugáveis, mas os bancos fixos são gratuitos.

Equivalente ao Central Park de Nova Iorque, o Hyde Park ocupa uma parte imensa da região centro-oeste de Londres. Pode-se chegar ao parque através de cinco estações de metrô. Dois séculos atrás, o parque original foi dividido em duas partes dando origem ao Kensington Gardens na parte oeste, onde situa-se o Kensington Palace. Este foi moradia da Princesa Diana desde que se separou do Príncipe Charles até sua morte em 1997. Em 2004 foi inaugurado uma fonte memorial em sua homenagem na parte sudoeste do Hyde Park.

O lago Serpentine divide o parque ao meio e tem esse nome devido ao seu formato de cobra. Há pedalinhos, canoas de remo e uma piscina que abre apenas no verão. Esse lago deu o nome à Serpentine Gallery, uma galeria de arte moderna que fica no Kensington Gardens. Próximo dali, está o Albert Memorial que a rainha Victoria mandou construir em homenagem ao falecido marido. Em frente ao memorial, já do lado de fora do parque fica o Royal Albert Hall, uma sala de espetáculos culturais onde já se apresentaram os artistas mais renomados do mundo inteiro.

Voltando ao Hyde Park, não poderia deixar de citar o Speaker’s Corner localizado no extremo nordeste, próximo à estação de Marble Arch. Ali, qualquer um pode discursar informalmente sobre qualquer assunto e exercer a liberdade de expressão. Marx, Lenin e George Orwell fazem parte da lista dos que já discursaram ali.

Muitos podem achar outros parques mais bonitos em Londres, o que felizmente pode bem ser verdade pois estamos muito bem servidos nesse departamento. Mas nenhum outro parque tem tantas coisas interessantes para se visitar, visto que nem pude citar aqui todas as atrações do parque. É um verdadeiro oásis de tranquilidade no meio da loucura de Londres.

2 comments Outubro 31, 2008

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