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Odaiji ni!
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão

Ah, enfermeiras japonesas...
Se tem uma coisa que deixa qualquer pessoa preocupada, essa coisa só pode ser a saúde. Mais que isso é ficar doente no exterior. Um agravante que eleva à décima potência qualquer “indisposição” de marcar consulta e ir ao médico. Principalmente se você não fala muito bem o idioma dele e é incapaz de encontrar sequer uma aspirina para dor de cabeça na farmácia.
Mas ficar doente num país de primeiro mundo não é preocupante, certo? Afinal, nós brasileiros estamos acostumados com um sistema de saúde precário e ineficiente dos países em desenvolvimento. Então, tratar-se num país de primeira como o Japão é um privilégio! Não é?
Era isso que eu pensava até ficar doente alguns meses atrás. Nada grave, Graças a Deus, mas incômodo o suficiente para me fazer mudar o horário do serviço para enfrentar fila no hospital. Coisa que eu gosto muito por sinal. ¬¬
Já fui ao dermatologista, dentista, oculista e vários outros “istas” aqui no Japão. Todo funcionário regular paga um imposto de saúde que dá direito a descontos e certas regalias para cuidar da saúde. As consultas são baratas, ficando na faixa de 5 a 10 dólares e são bem rápidas, tanto na hora de ser atendido quanto durante a consulta. A típica eficiência japonesa funciona muito bem em clínicas e até mesmo hospitais, onde tudo pode ser resolvido muitas vezes em menos de 1 hora. Os remédios também não são muito caros e o máximo que gastei de uma vez na farmácia foi 30 dólares, em remédios para gripe.
Porém, há algum tempo atrás precisei me consultar com um clínico-geral pois estava sentindo alguma coisa estranha na região do estômago. Como vira e mexe eu passo mal com a comida daqui (sim, não é tudo que é saudável), a coisa piorou com a pressão no trabalho desde o início da crise. Geralmente eu vou sozinho ao médico, mesmo passando aperto para entender o diagnóstico em japonês. Como estava com receio de não entender o que o médico dissesse, o pessoal do trabalho me indicou o Centro Médico Internacional do Japão, aqui mesmo em Tóquio. A vantagem desse hospital é que os médicos e os funcionários falam o inglês. Apesar disso eu não vi muitos estrangeiros por ali e também não usei nada de inglês já que consegui me comunicar apenas com o dicionário do meu pequeno DS.
Os brasileiros residentes no Japão sempre se queixaram dos médicos japoneses. Primeiro por que comumente eles não explicam o que você tem, apenas passam a receitam e dizem “odaiji ni”, que significa “melhoras para você”. Outra coisa é que os médicos muitas vezes são inseguros e parecem que não sabem o que estão fazendo, ou se sabem não dizem. Isso somado à fraca reação dos remédios japoneses contribui para a imagem de que a medicina no Japão não funciona bem.
Por exemplo, uma amiga espanhola que faz Taiko (os tambores japoneses) estava sentindo dores nas costas das mãos quando tocava e resolveu se consultar para ver se havia algo de grave. O médico ao examiná-la superficialmente prescreveu o tratamento: “Amarre alguma coisa na mão quando for tocar”. Ela ficou possessa e voltou do hospital xingando Deus e o mundo.
Comigo foi parecido.Vou narrar o evento:
Depois de passar por exames, entregar amostras e tudo mais; o clínico (que devia ser residente pois era mais novo que eu) disse que todos os resultados não mostravam nenhuma anormalidade no meu corpo e que não havia nada a se fazer. “Como assim? Eu ainda sinto DOR, está doendo agora mesmo” – disse incrédulo. Pensativo, ele pediu licença e saiu da sala, depois de alguns minutos voltou e disse com determinação. “Estive conversando com um médico mais velho. Não há indícios de doenças graves como câncer e também não há hemorragia interna, portanto não deve haver ferida. Vamos esperar algumas semanas, se não sarar sozinho você volta e então faremos mais exames”.

No consultório, um calendário com o tema "Brazil-futebol-Rio"
Alguns segundos de silêncio se passaram até que eu confirmei “Você está me dizendo para esperar doer MAIS para começar algum tratamento?” – no que retrucou: “Sim, não é nada grave. Deve ser estresse. Procure se divertir mais” disse. Concordei, meio chocado, e fui pegando minhas coisas. No corredor, quase saindo daquela área, o jovem médico veio correndo atrás de mim, com a típica expressão de quem se lembrou de algo subitamente. Com o indicar em riste perguntou “Você quer algum analgésico para aliviar a dor?”. Balançando a cabeça negativamente, pensei comigo “Não, vou esperar até começar a sangrar. Muito obrigado”. Com um sorriso se despediu dizendo: “Odaiji ni!”. Termo que ouvi de cada pessoa por quem passava até sair do hospital.

Quais são as chances de encontrar uma coisa dessas no hospital?
Não quero gerenalizar, mas ouvi muitas histórias do tipo aqui. Portanto acho que as chances disso acontecer são grandes. O Centro Médico Internacional é um complexo enorme que tem todos os tipos de clínicas, com a vantagem dos médicos falarem inglês. Minha experiência lá não foi das melhores, mas pode ser que tenha tido azar.
O melhor mesmo é cuidar da saúde para não ficar doente. Mas como ninguém tem saúde de ferro, Odaiji ni!
またね!
お大事に!
6 comments Agosto 6, 2009
Você tem amigo japonês?
Júlio Cesar Caruso
colaborando de Tóquio, Japão
Você tem amigo japonês? Já ouvi essas perguntas trocentas vezes. Mas hoje resolvi escrever sobre isso, depois que pessoas diferentes, em situações diferentes, me fizeram essa mesma pergunta, dois dias seguidos. Fiquei impressionado comigo mesmo, porque só depois que me pisaram na mesma ferida duas vezes, foi que eu me dei conta de que não é tão fácil assim responder a essa pergunta, que no Brasil parecia ser tão simples.

A resposta, a princípio seria, “depende”. Como assim depende? Depende ora! Depende do sentido da palavra “amigo”. Não vou entrar nem no mérito da diferença entre “colega” e “amigo”. Também não vou falar de cônjuges, namorados, rolos e afins japoneses. Isso é outra coisa (Mas que com certeza rende outro post). Mas para ficar menos complicado, vamos imaginar um amigo, amigo mesmo.
Aqui no Japão…amigo, amigo mesmo? …bom, eu saio para beber com japoneses. Trabalho com japoneses. Eu rio e me divirto com japoneses. Danço com japoneses. Troco emails. Falo japonês. Mas amigo japonês mesmo… (suspiro).
Claro que já cheguei a pensar que eu era o problema. Mas já notei que eles mesmos sabem que amigo japonês e amigo brasileiro não são iguais. Eles sabem que há uma barreira entre eles e o amigo japonês. Se o tal amigo for mais velho ou se for de um ano acima do seu na faculdade ou mesmo na empresa, essa barreira que separa os dois ganha ainda mais cimento!!! Lembro de uma japonesa me dizer que estava afim de sair para beber, mas não tinha ninguém para chamar. Ela ainda comentou que tinha uma amiga que adorava beber. Eu perguntei: por que não chama ela então? Ao que ela me indagou: Agora? Detalhe: não era uma hora da manhã. Eram 7 da noite!!!
Bom, sei que não posso generalizar, mas posso afirmar que ter um amigo japonês e um amigo brasileiro é diferente sim. Eu sinto isso quando paro para pensar que consigo ser mais íntimo com um brasileiro que vem do Brasil a passeio ao Japão e nunca nos vimos antes, do que com um japonês que trabalha comigo há anos e anos!! É impressionante! Consigo abraçar, dançar e contar piadas com uma amiga espanhola com que tenho amizade há menos de 1 ano e não faço nem metade com os japoneses que conheço há mais de 10 anos!! Já passei o dia na casa de um amigo brasileiro, sentei no chão, mexi no computador dele, liguei para ele às 23h da noite para choramingar que meu celular havia sido roubado e no entanto, conheço japoneses que já saí para beber e me divertir, mas nunca pisei na casa dele ou se já fui, não fui sem antes agendar com páginas e páginas da agenda com antecedência. E se fui muito provavelmente, foi porque ele chamou por algum motivo óbvio, como uma festa, por exemplo.
Se eu responder que não tenho amigos japoneses, os japoneses que me conhecem e entendem português, tratarão de fazer um bonequinho meu e tascar agulha nele. Ou ainda, aquele brasileiro que tem um amigão japonês de verdade vai me chamar de mal amado, revoltado e, por fim, dirá que se não tenho amigos japoneses, é porque eu devo ser um porre como pessoa. Tudo bem, falem mal mas fale de mim (risos).
Brincadeiras à parte, e para concluir, posso dizer que o que dificulta a pronta resposta afirmativa a polêmica (?) pergunta é a comparação que inevitavelmente faço internamente com os meus amigos do Brasil. Meus amigos no Brasil, não eram, mas são pessoas que me ligam a qualquer hora para dizer que estão tristes e precisam conversar. Mandam emails só com a piada da semana. São pessoas que quando EU estava triste, me obrigavam a botar a primeira roupa do armário e sair para dar uma volta. Meus amigos do Brasil são pessoas que eu chamo de viadinho, de galinha, de fresco, de vagabunda….tudo com carinho e sem cerimônias, e eles riem. Eles também me fazem os mesmos elogios e eu só rio. São pessoas que compartilho minhas gafes, as encrencas que me meti, as histórias e aventuras sexuais, tudo sem o menor pudor e com a certeza de que eles me entenderão e mais tarde, um dia, eu ouvirem as histórias deles também. E como last but not least, são pessoas que eu abraço, beijo, pego no braço, boto minha perna no colo (este item restringe-se às amigas), dou tapinha nas costas e, para me despedir, mando “bejunda”! Sendo assim, fica fácil responder. Se o sentido da palavra amigo for igual a esse que eu carreguei há anos no Brasil, eu respondo: Não, eu não tenho nenhum amigo japonês.
Julio Cesar Caruso é carioca (da gema) e autor do blog Muito Japão!
24 comments Junho 7, 2009
Três meses, três sonhos
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão
Antes de atravessar oceanos para experimentar a vida muitos de nós, expatriados, alimentamos pequenos e grandes desejos, chamados sonhos. Muitas vezes são exatamente esses mesmos devaneios que nos levam à dar a volta do mundo na esperança de realizá-los mesmo que em parte. De minha parte posso dizer que muitas coisas que imaginava só em filmes agora fazem parte da minha rotina, pequenas coisas, mas impensáveis de se alcançar há apenas 2 anos atrás.
Como toda história de imigrantes, meus começo não foi exatamente uma maravilha. Houve muitos problemas, alguns desconfortos e outras coisas ruins que só puderam ser sobrepujadas com certo esforço e, principalmente, com a ajuda de amigos. Porém, nesse ano de 2009 alguns frutos já começaram a amadurecer. Em três meses, três sonhos que tinha se realizaram. Talvez pareça bobagem para quem vê de fora, mas para mim trazem enorme satisfação.
O primeiro foi adquirir um mega PC de última geração. Só quem gosta de tecnologia e sabe o quão difícil (e caro) é botar as mão numa máquina que pode rodar todo e qualquer programa existente hoje no mercado, jogos inclusive. Desejo que vinha alimentando desde meus tempos de garoto, quando lia em revistas ou jornais sobre os lançamentos do mundo da informática e sonhava como seria ter algo assim em casa. Talvez o leitor que não entenda nada de computadores não veja isso como sonho, mas digamos que se eu tivesse comprado um carro, seria um Porsche. Esse assunto necessita um post especial só para ele (já em produção). Isso foi em Janeiro.
Já em fevereiro, recebi a cartinha mais bendita do mundo, anunciando minha aprovação em um dos mais importantes testes de proficiência do idioma japonês, o Noryoku Shiken. Conseguir passar no nível 2, o segundo mais difícil, é uma tremenda conquista e uma grande satisfação pessoal, tendo em conta que foram quase 2 anos estudando praticamente todos os dias para esse exame. Dominar em parte o idioma do país onde se vive facilita e muito o dia-a-dia, evita momentos de constrangimento e ajuda a se conseguir as coisas com maior conforto e eficiência. Indispensável ao meu ver.
O terceiro se concretizou no mês seguinte, março, quando consegui pela primeira vez alugar um apartamento sozinho. Morar sozinho quando se vive somente com seu próprio salário é um enorme privilégio, ainda mais se tratando de Tóquio, a cidade mais cara do mundo. No Brasil sempre imaginei que levaria muitos anos até conseguir ter dinheiro suficiente para morar num apartamento sozinho, com minhas coisas e minhas manias. No Japão isso sempre me pareceu algo quase impossível de se conseguir, um sonho mesmo, mas que agora faz parte do meu dia-a-dia.
Ao passar dos meses posso reparar que outros frutos das sementes que plantei lá atrás, quando cheguei na ilha, estão amadurecendo. Está na hora de plantar novas sementes, o que faço agora com mais confiança já que obtive resultado das minhas primeiras experiências. Prova de que vale a pena sonhar e de que vale a pena correr atrás desse amontoado de pequenos desejos, que juntos formam aquilo que podemos definir como sonho.
E sonhar é viver! Sonhar é preciso.
Continuem sonhando!
4 comments Abril 23, 2009
Meia volta, volta e meia
Julio Cesar Caruso
colaborando de Tóquio, Japão
Voltar ou não voltar é uma dúvida que já contaminou a maior parte dos estrangeiros que vivem aqui no Japão. Há cerca de 20 anos, chegou a primeira grande leva de brasileiros que vinham ao Japão com a fixa idéia de juntar dinheiro e; depois de dois, três anos; regressar ao Brasil e abrir o próprio negócio. Essa idéia de voltar logo foi cada vez mais perdendo a força e hoje, no Japão, com muitos brasileiros com 15, 16, 17 anos “de casa”, já se fala em imigração brasileira no Japão.
Zé das Silva, Diário Catarinense
Eu, com meus meros 7 anos de Japão, não penso em voltar ao Brasil. Como disse a conterrânea que vive na Espanha, bem ou mal, já tenho minha vida aqui e, com certeza, a decisão de voltar ao Brasil é tão difícil quanto foi a decisão de largar tudo para vir morar no Japão. Desnecessário eu dizer que família e amigos perto fazem falta. Mas no fundo, eu acredito que não se pode ganhar todas.
Eu mesmo decidi vir morar aqui no Japão por admirar o país, a cultura e o idioma, que eu já estudava quando vivia no Brasil. Por isso, sempre coloco na minha cabeça que este é o preço que estou pagando por realizar meu sonho. Estou feliz aqui. Estaria muito mais se pudesse ver minha família com uma frequência bem maior, com mais facilidade e claro de uma forma mais rápida e econômica, e não separados por cerca de 30 horas de voo. Também gostaria de uma ponte aérea entre Tóquio – Rio de Janeiro!!
Saudades, eu sinto claro. Mas eu sinto como um termômetro. Um dia o termômetro está mais para “Brasil” e outro dia mais para “Japão”. Fim de ano o termômetro não sai do modo “Brasil”, tamanha a vontade de voltar para o Natal, meu aniversário (26) e reveillón no Rio de Janeiro!! Mas depois que passa essa época, volto a me sentir feliz por morar, trabalhar e viver normalmente no país em que eu sempre quis morar e realizei meu sonho.
Confesso que já fui mais categórico ao afirmar que nunca, jamais, eu voltaria ao Brasil para morar de novo. Mas com o passar do tempo, conhecendo mais o Japão e vendo o Brasil de longe eu tenho aprendido cada vez mais que qualquer país tem seus “prós” e “contras”. Enquanto eu morava no Brasil, eu era daquelas pessoas que acha que só o Brasil tem os “contras” e o Japão era só “prós”. Mas não é assim. Por isso, quando me perguntam se eu vou voltar ao Brasil algum dia, eu mantenho o pulso firme e respondo logo: nunca se sabe.
Julio Cesar Caruso é carioca (da gema) e autor do blog Muito Japão!
2 comments Fevereiro 27, 2009
Natal a Dois
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão

Depois de reclamar muito sobre o Natal japonês, agora vou falar um pouco sobre o… digamos, lado positivo dessa data comercial. Todo mundo sabe que o Japão não é um país católico, que não tem igrejas em todos os lugares, que os japoneses desconhecem muitas das datas mais importantes no calendário cristão e por aí vai. Não sei se é por isso, mas Natal por aqui não é uma data para se celebrar com a família, e sim a dois.

Sugestão de presente de Natal em um shopping de Kinshincho
Além do famigerado christmas cake, os japoneses comemoram desfrutando de outros prazeres terrenos. Sim, é isso mesmo que você está pensando. Quem tem “companhia” para passar a noite de Natal, certamente o faz com toda a cerimônia e requintes do dia dos namorados.

Está certo que aquele clima natalino, com amigos ligando, parentes presenteando e todo mundo querendo ser bonzinho é super bacana e faz a maior falta. Mas convenhamos que aqui também tem particulariedades que fazem do Natal uma data bem… especial. Principalmente para a sua namorada, que deve ganhar um belo presente (torça para que seja só de você).

Com todo esse clima de romance no ar, fica aquela tensão de não querer passar a noite de natal sozinho. Assim como nas vésperas do dias dos namorados, todo mundo pergunta: “Vai passar o Natal com quem?“. Aí já viu, todos solteiros inventando mil compromissos de última hora para parecer ocupados demais para se preocupar com parceiros amorosos. Aliás, sabia que o Japão tem um número alarmante de pessoas solteiras?
O pessoal com quem trabalho, por serem brasileiros e peruanos, sentem falta daquela reunião fraternal de final de ano. Nessas datas geralmente o povo sai para jantar junto e conversar um pouco, até por que o Natal aqui não é feriado e no dia seguinte todos têm de voltar à labuta. Por não ter parentes por perto, quem tem o costume de celebrar o Natal da maneira tradicional geralmente se encontra com amigos ou com colegas de trabalho mesmo.
Nem preciso falar com quem eu gostaria de celebrar meu Natal…

4 comments Janeiro 11, 2009
Um gostinho de Brasil
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão

Série especial de café em comemoração a imigração japonesa ao Brasil vendida em cafeteria de Tóquio
Saudades, quem não sente?
Se voltar para casa mesmo depois de apenas alguns poucos dias fora já causa aquela sensação de alívio e conforto, imagine então um, dois, DEZ anos sem pisar descalço naquela grama onde costumávamos brincar quando criança? Vertigem, momentos perdidos em divagares sobre cores e formas familiares, alguma coisa dentro do peito se bate e rebate: tem algo muito importante faltando! O que será? São saudades de casa.
Talvez esse seja o preço mais alto que nós, viajantes sem retorno definido, pagamos para viver nossos sonhos. Porém, algumas pequenas surpresas do cotidiano nos alegram o dia ao trazer do além-mar lembranças, aromas, gostos e sons diretamente da Pátria Amada.
Estando longe, longe; do outro lado do mundo, essas coisinhas fazem toda a diferença na minha vida. Posso não lembrar todas para listar, até por que são mais do que se pode imaginar, mas aí vão algumas delas:
- No corre-corre e empurra-empurra das baldeações dos trens de Tóquio, de repente reparar numa jaqueta verde-amarela escrita BRASIL (com “S ” mesmo) vestindo um japonês todo moderninho, ouvindo seu i-pod e perceber que existem pessoas que gostam do seu país ao ponto de mostrarem isso a todo mundo sem remorso. Já vi bonés, chuteiras, bolas e muitos produtos que trazem o Brasil como tema. Além do mais, japoneses apaixonados pela cultura brasileira não são poucos e muitos deles inclusive já moraram no Brasil.
- Entrar numa loja de conveniência ou restaurante e ouvir, dentre a programação da música ambiente, temas brasileiros cantados em português claro. Já ouvi Caetano Veloso, Maria Rita, Tom Jobim e muitos outros artitas em lugares onde os frequentadores eram japoneses em sua maioria. Apesar da grande maioria ser Bossa Nova e similares, é possível ouvir uma ou outra música diferente dependendo do lugar.
- Pedir um café e descobrir que o do Brasil é um dos mais prestigiados, estando do lado de outros de alta qualidade, como o Blue Montain. É certo que o café brasileiro tem bastante prestígio no exterior, mas encontrar assim, de repende, na sua frente para comprar numa loja qualquer é muito legal.
- Num país tão atrelado às suas tradições seculares como o Japão, ter grandes festivas de cultura brasileira acontecendo no país todo. Cinema, fotografia, exposições de arte e até mesmo carnaval. Em Tóquio existe o já tradicional carnaval de Asakusa, onde podemos dar um gostinho de como é essa grande festa que só os brasileiros podem fazer.
Passista de samba no carnaval de Asakusa, Tóquio
- Ir comprar pão na padaria japonesa e encontrar pão de queijo no meio de um monte de tipos de massas. E ainda por cima escrito “pão de queijo” em japonês, com a devida explicação de ser uma espécie de petisco brasileiro. Há até uma cópia do salgadinho mineiro produzido em larga escala e vendido em supermercados e lojas de conveniência no Japão, mas o da padaria é o que mais parece com o de casa. Certa vez, andando no tradicional templo de Kaminari (famoso ponto turístico da cidade), fui presenteado com um petisco que o sorridente comerciante apresentou como sendo um “mochi de queijo”. Louco por queijo como sou, resolvi comprar uma caixa daquela deliciosa guloseima, só para descobrir enquanto fazia o pagamento que “o queijo que utilizamos é um queijo muito especial 100% natural. Vem do Brasil e se chama requeijão“.
- Depois de zanzar entre estantes empilhadas de eletrônicos de última geração no bairro de Akihabara, procurar alguma coisa para almoçar e descobrir um barzinho brasileiro vendendo filé com fritas. Apesar de ser um pouco caro, o prato é bem servido e o tempero da carne é extraordinário. Seria uma viagem interdimensional ao Brasil se não fosse o detalhe do arroz ser japonês e o cardápio estar escrito em japonês. Existem alguns restaurantes espalhados pela capital japonesa e muitas dezenas deles no Japão todo. Até pizzaria brasileira existe, fazem até mesmo entrega a domicílio.
- Ouvir um alto “Claro que conheço São Paulo, uma das cidades mais importantes da América Latina” vindo de inúmeras pessoas de diferentes nacionalidades. Principalmente os japoneses que estão mais antenados nas coisas do exterior e não tão presos às modas e clichês que existem em toda parte. Geralmente o povo só conhece o Rio de Janeiro, o que me faz pensar se não existe nada mais atraente num país tão amplo e rico em beleza natural como o Brasil.
8 comments Dezembro 14, 2008
Brasileiros no Japão – O sol brilha para todos
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão
Antes de descrever meus pensamentos sobre a comunidade brasileira no Japão, permitam-me explicar que o que digo aqui é uma opinião pessoal e, portanto, parcial e de certa forma superficial do assunto. Afinal, sou apenas um novato nessas terras longínquas. De antemão posso dizer que sou crítico fervoroso da postura que muitos dos meus compatriotas têm em terras nipônicas, por isso acredito que alguns podem se sentir ofendidos com o conteúdo do meu artigo.
“Juliano e Carol”, Foto de Ricardo Yamamoto
Falar sobre os brasileiros soa, de certa forma, como uma auto-análise. É difícil mesmo para um estudioso experiente olhar o Brasil e encontrar um único traço cultural que se repita como padrão em todas as etnias e religiões que há nesse país. Somos multi-culturais, mas, ao mesmo tempo, ignorantes em muitos aspectos.
Não consigo falar dos brasileiros no Japão sem mencionar a imigração japonesa ocorrida em 1908. O fato de haver mais de 300 mil brasileiros vivendo e trabalhando legalmente no Japão se deve a esse marco cultural entre os dois países. Os primeiros japoneses a desembarcar em terras brasileiras nunca tiveram a intenção de ficar no Brasil, pelo contrário, sempre existiu o sonho de retornar para casa. Devido a fatores diversos, a imensa maioria não teve outra opção senão fincar raízes em solo tupiquinim e tocar a vida. Porém, ao longo desses 100 anos o sonho de retornar à terra ancestral não perdeu forças e realizou-se, de certa forma, na vida dos descendentes japoneses.
Lembro-me muito claramente das reuniões da minha família, onde meus tios mais velhos se reuniam para contar histórias sobre os primórdios da colônia japonesa que me causavam grande espanto e admiração. Mesmo criança eu conseguia sentir sua grande admiração pelo país Japão, e talvez isso tenha sido a grande fagulha que despertou a vontade de deixar o Brasil. Acredito que não só em mim, mas em muitos descendentes como eu. Soma-se a isso a forte economia e o futuro promissor que o país oferece e não fica difícil de se imaginar por que somos hoje a 3ª maior comunidade de estrangeiros no Japão. Mas para tudo existe um preço a se pagar…
Não é segredo que a grande maioria dos nossos estão no Japão para simplesmente juntar dinheiro. Os fins são inúmeros: comprar uma casa, fazer poupança para abrir um negócio, pagar a escola dos filhos, trocar de carro, etc. A verdade é que muitos vêm para cá com a ilusão de que aqui se pode enriquecer rapidamente, atingir seu objetivo em poucos anos e finalmente voltar ao Brasil. Assim como seus pais e avós, esse ledo engano pode fazer o que era uma viagem de 3 anos virar uma jornada de 15 anos num piscar de olhos.
Perdidos entre dívidas e cargas horárias de mais de 14h diárias, não demora muito para que os primeiros problemas surjam. Saudade de casa, dos parentes, amigos, dos costumes e da brasilidade fazem com que todas as qualidades de se morar em outro lugar sumam e apareçam apenas descontentamentos e desilusões. O complexo idioma e a rotina puxada do japonês são desafiadores até mesmo para os outros povos asiáticos, acostumados com a cultura oriental. Como muitos dos “imigrantes temporários” são jovens entre 18 e 25 anos de idade, essa frustração se converte em consumismo desenfreado, alcoolismo e violência. Isso para não mencionar as drogas, que são muito comuns apesar das consequências em relação ao visto (quem for pego consumindo ou portanto qualquer droga ilegal é preso e depois de cumprir pena é deportado). Aos poucos, vai se perdendo aquele brilho no olhar que nos dá a fama de ser um povo alegre. Encontrei e continuo encontrando muita gente amargurada com a vida por aqui.
Contudo, não são todos os brasileiros que se afundam no choque cultural. A verdade é muitos se saem bem. Não sei dizer ao certo a porcentagem, mas existem muitas famílias que apesar dos problemas conseguiram se adaptar e hoje levam uma vida mais digna talvez do que teriam no Brasil. Existem brasileiros que ajudam a polícia, trabalham nos órgãos públicos do governo japonês, lecionam em escolas e até mesmo universidades, promovem a cultura brasileira na Ásia, entre outras coisas legais. Não preciso mencionar que o primeiro passo que todas essas pessoas tomaram foi o de dominar o idioma local.
Apesar de ser óbvio que a comunicação é necessária para mútua compreensão, muitos brasileiros simplesmente fazem corpo mole e não se dispõem a estudar nem mesmo o básico. As desculpas são muitas, trabalho, filho, dívida e por aí vai. Nada que nunca tenha ouvido quando estudava no Brasil. Acredito que existam sim pessoas que estudam em condições privilegiadas, mas até hoje conheci apenas algumas que não precisaram se sacrificar para aprender uma língua nova. Todos temos que trabalhar para pagar o aluguel, comprar roupa e comida. Ao meu ver, a verdade é que brasileiro não gosta de estudar. Os colonos japoneses levaram 2 gerações para descobrir que é preciso aprender o idioma do lugar onde se vive, mesmo colocando em risco a preservação da cultura. Quanto tempo mais os brasileiros no Japão vão levar para se dar conta disso?
Nikkeis na Festa do Centenário da Imigração Japonesa, em São Paulo. Foto por Diego Mccormick
No Brasil, para o bem ou para o mal, todos nós somos seletivos com nosso círculo de amizades. Não diria que é interesse apenas, mas certas coisas simplesmente não batem. Dentre os nossos no exterior, antes de se haver intimidade, há toda uma bateria investigatória para se definir com que tipo de pessoa está se lidando. No Japão, talvez mais ainda que em outros países, existem brasileiros e brasileiros. Particularmente escolhi me afastar da comunidade, não apenas por essa (falta de) cultura que se instalou, mas também para me forçar a conviver com pessoas diferentes e poder aprender mais, principalmente em relação ao idioma japonês.
Eu estou do lado daqueles que lutam para melhorar a imagem do meu país e do meu povo perante o mundo. E você?
3 comments Dezembro 6, 2008
Apaixonado por Japonês(as)
Julio Cesar Caruso
Colaborando de Tóquio, Japão
Falar do idioma japonês é um prazer. Não sou descendente de japoneses – sou de sangue Pereira Dias e com sobrenome Caruso – mas me apaixonei pela língua japonesa na hora em que eu vi e peguei pela primeira vez um livro escrito naquele idioma. O mais impressionante para mim naquela época – e até hoje acho interessantíssimo – foi, e é, o fato de ser um livro aparentemente comum, mas escrito na vertical e da direita para a esquerda. Até hoje, muitos livros, revistas, jornais e letreiros são escritos em japonês são na vertical (縦書き/ tategaki). Há também os, digamos, escritos ao modo ocidental, mas na minha opinião, o famoso “escrito em pé” é muito mais bonito!
Quem tiver curiosidade de ler/ver uma revista em japonês acesse o link da Revista Mais Brasil, uma revista toda em japonês só sobre o nosso grande Brasil! Anota aí: www.revistamaisbrasil.com

A língua japonesa recebeu forte influência da língua chinesa que “emprestou” muitos de seus ideogramas, o famoso “kanji”, como alguns preferem dizer. Talvez por isso, muitas gente pensa que é tudo a mesma coisa, mas na verdade, não é. Sempre me perguntam se “dá pra entender chinês”. Bom, falado, não se entende patavinas! Escrito? Depende. Não chega a ter a semelhança que existe entre português e espanhol, por exemplo, mas como há ideogramas comuns, usados tanto na China como no Japão, é possível, ao menos em certos casos, não ficar boiando. Mas a compreensão pode ser prejudicada pela existência de ideogramas que só existam em chinês mas não em japonês. Do mesmo modo, hoje já existem ideogramas que só existem em japonês e não em chinês. Há também casos em que os ideogramas, que na verdade foram trazidos da China via Coréia, passaram por uma modificação e até simplificação no número de traços quando aportaram em terras nipônicas.
Assim como português e espanhol têm lá seus “falsos amigos”, ou seja, palavras que são iguais mas significam coisas distintas, em japonês e chinês também os têm. A palavra “carta” em japonês, se escreve com os ideogramas de “mão” + ”papel”. Assim: 手紙. A mesma combinação de ideogramas, na língua chinesa, quer dizer “papel higiênico”!!!
O que os dois povos concordam e sabem muito bem é que ideograma é imagem! Há ideogramas que os próprios japoneses não sabem como ler corretamente, mas sabem o que o significa, o que representa aquele “desenho”, e isso é o que mais importa na hora de ler um texto. Também não são raros os casos em que ao perguntar o significado de uma palavra a um japonês, ele possa a princípio parecer não saber do que se trata, apenas ouvindo a palavra. Mas tente mostrar os ideogramas da palavra que você quer saber. É provável que depois de um longo ahhhhhhh, ele comece a te explicar o que significa tim tim por tim tim!

Mas o grande diferencial mesmo entre japonês e chinês é que um texto em chinês é escrito somente com ideogramas. Em japonês, além dos ideogramas, há mais dois silabários usados em um mesmo texto. Aliás essa é outra pergunta do meu FAQ depois que comecei a estudar japonês. “É verdade que em japonês eles usam três alfabetos?” Sim! Eu diria silabário, porque dizemos ka, ki, ku, ke, ko, sa, shi, su e assim por diante. Mas que são usados três ao mesmo tempo, isso sim é verdade. Um deles é usado na maioria das vezes, somente para palavras que não são de origem japonesa. A maioria vem do inglês. Parênteses: além do inglês, alemão, holandês etc, há palavras com suas origens no português também, como: karuta (carta) , kappa (capa de chuva), koppu (copo), biidoro (vidro), rozario (rosário) etc. Eu acrescentaria até asai (açaí) e pondekeijo (pão de queijo), que estão ficando bem famosos ultimamente por aqui.
Aprender japonês é como qualquer outro idioma, digo, no tocante à premissa de que a prática leva à fluência. É o famoso “Ah se não usar esquece mesmo!”. A dificuldade pode estar no fato de que não são usadas letras romanizadas e, para saber ler e escrever, é preciso, mesmo depois de adulto, fazer exercícios de letras pontilhadas e usar caderno quadriculado para escrever as “minhas primeiras letrinhas”.
Eu costumo dizer que sei tanto incentivar uma pessoa a aprender japonês, assim como sei fazê-la desistir na mesma hora. Como estratégia-chamariz, eu diria que não há conjugação de verbo. É um verbo para “eu”, para “tu”, para todo mundo! Também não há flexão de gênero ou de plural. É ótimo para maridos com esposa ciumenta! Basta dizer que vai sair com “tomodachi”, que não dá para saber se é amigo ou amiga e nem se é singular ou plural. Maneiro não? Claro que se a patroa for ciumenta até da própria sombra e o marido quiser poupar seus tímpanos, ele pode especificar que vai sair com amiGOS, utilizando os ideogramas de “homem” e o número de amigos, na frente da palavra “tomodachi”. Assim, tudo estará perfeitamente esclarecido! Outra vantagem pode ser encontrada nos idiomas dos países, bem como seus gentílicos. Em japonês não tem essa de “Quem nasce no Sri Lanka é o que?”. Se o país se chama スリランカ/ suriranka, quem nasce lá é スリランカ人/ surirankajin. Repare que foi acrescido somente o “jin”, que quer dizer “pessoa”. Pronto! Se “Brasil” em japonês é ブラジル/ burajiru, eu sou ブラジル人/ burajirujin. E como, mencionei antes, não há variação de gênero ou grau, eles são “burajirujin”, ela é “burajirujin”, nós somos “burajirujin” e Deus é “burajirujin”. O mesmo é válido para os idiomas. Você sabe que idioma é falado em Laos? Tudo bem, se for em japonês, não precisa esquentar. Basta acrescentar o ideograma (語/ go) para “idioma” depois do nome do país e pronto. Se “Laos” se diz ラオス / raosu, o idioma falado lá éラオス語/ raosugo!! Simples! Claro que há casos em que um pouquinho de conhecimento de história mundial basta para saber que, com exceção do Brasil, nos outros países da América latina se fala スペイン語/ supeingo e que no Brasil, não se fala ブラジル語/ burajirugo, mas sim ポルトガル語/ porutogarugo.
Agora há também outras características do idioma japonês que faz muita gente me dizer “Cruuuz credo!” , “Ah meu Deus essa língua é muito difícil” ou ainda “Cara não sei como tu consegue!”. Entre as características espanta-leigo, eu destacaria, bom, os ideogramas em si, já que devemos saber pelo menos uns 2 mil para se ler um jornal, sendo que cada um possui mais de uma leitura diferente. Depois talvez pelo fato de existir três grandes formas básicas de se expressar no idioma japonês. Tudo vai depender da minha posição hierárquica para com quem eu esteja falando.

Trocando em miúdos: se o sujeito da frase for alguém superior a mim eu falo de um jeito. Se for do mesmo nível, eu uso outra forma e se for de nível mais baixo, eu uso uma terceira forma. Nível? Como assim? Como exemplo básico pense em três figuras: chefe, amigo e pessoa mais nova. É comum em japonês pensarmos na relação “superior” e “inferior”, na hora de falar. Um comerciante por exemplo, jamais pode tratar o cliente do mesmo nível. Por isso, nas lojas, os funcionários se expressam sempre se colocando em posição inferior em relação aos clientes. Isso quer dizer que até os verbos usados são nítidamente de inferior para superior.
Acho que seria interessante dizer também que há palavras que só homem pode falar e outras que só mulher pode. OK! Aí alguém vai pensar: e os gays japoneses falam qual? Depende de cada um. Já vi homens gays falando como mulheres, como também há os que mantêm o “H” maiúsculo ao menos quando se expressam oralmente em japonês. Até o próprio pronome pessoal do caso reto “eu” tem diferença. Homem pode dizer 俺/ ore, mas mulher não. Assim como uma mulher pode falar アタシ/ atashi, mas homem, homem mesmo, não. Existe a forma “coringa”, que seria, “watashi” ou “watakushi”. Essa todo mundo pode usar.
Outra coisa que deixa qualquer um desesperado é o fato de o sistema de contagem ser diferente dependendo do objeto em questão. Por exemplo: em português dizemos um, dois, três, quatro … pessoas, livros, animais etc. Certo? Em japonês, se eu for contar pessoas, eu conto de um jeito. Se eu estiver contando animais é de outro. Se for livros é outra contagem, diferente da usada para lápis, por exemplo. Sentiu o drama?
Bom, mas é uma língua muito interessante, cheia de história, tradição, influências, peculiaridades etc. Eu sou suspeito para falar. Eu comecei a aprender não por pressão da família ou só para “botar no currículo”. Eu comecei a estudar para saber como é a língua e fui gostando cada vez mais. Hoje eu falo, leio e escrevo. O que não significa que eu sei tudo, entendo tudo e não estudo mais. Procuro sempre ler algo em japonês. Na minha bolsa tem sempre um livro ou uma revista em japonês para eu ler no trem. Jornal japonês, eu também leio todos os dias. Para me informar, claro, e me aprimorar também. Sempre aprendo algo. Aliás descobri que era capaz de fazer isso quando assumi as páginas com matérias do Japão e tinha que ler os principais jornais, fazer um resumo e traduzir para português. Eu já mudei de empresa, mas continuo trabalhando fazendo traduções, em geral do japonês para o português.
Não é impossível aprender. Basta gostar e, como eu sempre digo, ter mente aberta. É colocar na cabeça de que é outra língua, de um outro povo, com uma outra cultura. Não se deve esperar que as regras sejam como na língua portuguesa. Saber curtir as diferenças é importante e ajuda a evoluir. Mas o importante mesmo é, principalmente, soltar o verbo! Mas prestando atenção nos três níveis hierárquicos hein!! (risos).
Caruso é formado em Letras pela UFRJ e vive no Japão com sua família há mais de 7 anos. Mantém o blog Muito Japão, onde disserta sobre a língua, as maneiras e os costumes dos japoneses.
8 comments Novembro 22, 2008
Preconceito no Japão
Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão
Antes de mais nada gostaria de deixar claro que há uma singela diferença entre preconceito e discriminação racial. Embora esteja errado, o preconceito é algo comum a todos nós, só pode ser combatido com informação e conhecimento. O preconceito pode ocorrer de várias formas, seja pela etnia, status social, emprego, cultura e afins. Porém, a discriminação racial parte do pré-conceito de que todo um grupo “racial”, ou mesmo de um país/lugar definido, torna-se parâmetro para diminuir ou aumentar as pessoas, mudando sua atitudes e criando um sistema de preferências e exclusividades injusto.
Não cabe mais ninguém no Japão?
foto: manganite
Geralmente quando se fala de preconceito ou discriminação, logo vem à mente o problema que os negros enfrentam há tempos e que é bem conhecido no mundo ocidental. Acredito que seja o exemplo que está mais bem ilustrado na mídia hoje em dia. Há documentários, entrevistas com estudiosos do assunto, filmes sobre o tema e muitos livros discutindo o problema racial. Raça humana, aliás, é um conceito duvidoso e que não foi cientificamente comprovado.
Apesar de tudo, não há como negar que há diferença na aparência das pessoas. Tais características trazem consigo séculos de valores agregados que circundam pelo subconsciente coletivo. Veja um nítido exemplo disso no vídeo abaixo.
Tudo isso é para ilustrar um tema complexo e que merece ser amplamente discutido: o preconceito no Japão. É dito que os japoneses, pela sua própria história, são discriminatórios contra estrangeiros. Já ouvi diversas pessoas se queixarem da comunidade japonesa no Brasil. Presenciei preconceito dos dois lados e posso afirmar que existe sim uma forte discriminação ao que se refere à etnia nipônica. Porém, é nos brasileiros, descendentes ou não, que ela se manifesta mais visivelmente.
Quanto se é estrangeiro, os valores se expandem. Você passa a ser julgado não só pela aparência, mas pela cultura, pelos valores e pela imagem do seu país. O Brasil tem fama de ser o país do futebol, do samba e das mulheres bonitas. Mas também tem fama de ser violento e pobre, criando assim a imagem do cidadão do terceiro mundo que vai atrás de dinheiro em países desenvolvidos, como o Japão. Por isso é comum associar um brasileiro à operário de fábrica ou funcionário menor de escritório quando muito. Poucos têm educação superior e a maioria vêm de lugares mais humildes do Brasil tentar a sorte no país de seus avós.
Os jovens japoneses adoram cultura estrangeira e são muito amigáveis com pessoas nitidamente gaijin, ou, estrangeiro-branco-ocidental.
foto: messynessy
Não chegaria ao ponto de acusar o povo japonês de ser racista, mas há uma clara preferência pelo estrangeiro americano, inglês ou de qualquer outro país desenvolvido, principalmente os de língua inglesa. Diria que é culpa do domínio cultural que os americanos têm sobre as mídias de massa, como filmes e a música. Está na moda usar roupas com slogans em inglês como “I love NY“, “Chicago Rules” e afins. É cool ter um amigo estrangeiro, é descolado misturar palavras em inglês no meio das frases em japonês, muitos se deslumbram com os trejeitos do estrangeiro e não são poucas as garotas que andam pelas ruas de Tóquio acompanhadas de homens caucasianos com o dobro de sua altura. Os japoneses são loucos por aprender a falar inglês, escolas do idioma são mais comuns que padarias no Brasil. Todos querem ao menos uma vez na vida visitar os EUA.
É muito comum encontrar roupas com frases escritas em inglês que exaltam a cultura americana. Praticamente todas as lojas populares têm uma coleção somente com esse tema.
imagem do site da loja Right-on
Por outro lado, povos de países em desenvolvimento, como Filipinas, Índia, Vietnã e muitos outros sofrem um tratamento que beira a antipatia, para não dizer que são ignorados por completo. O Brasil faz parte desse grupo de países “fora da moda” mas causa certa curiosidade pela cultura não-asiática e pelo conhecido tratamento amigável que nós damos até mesmo ao mais completo desconhecido. Isso contudo não garante interação nem assegura privilégios.
No Japão as relações sociais são estabelecidas por grupos, é assim desde tempos imemoráveis. Se você é considerado membro do grupo, será tratado como igual. Mas se está fora, é um visitante. Não será mal-tratado, mas não passará de um eterno “desconhecido”. Esse pensamento vale para escolas, empresas, prédios e quaisquer outros lugares onde um grande número de pessoas interagem entre si. Por isso é comum não conseguir se misturar com japoneses, o que causa a incômoda sensação de que você não é bem vindo.
Apesar dos pesares devo confessar que venho me surpreendendo com a cordialidade dos japoneses. Depois de ouvir tantas histórias de racismo no Brasil, estive preocupado com minha aceitação nessa sociedade famosa por proteger seus valores. Porém o que vejo é um povo muito curioso e amigável e até agora não me causou nenhum tipo de dano proveniente do preconceito. Embora ele exista de fato, principalmente entre os descendentes sem mistura, que são cobrados a saber a língua e a cultura como um nativo. Porém, se você um dia vier conhecer essa terra tão confusa, tenho certeza que será tão bem tratado que sentirá saudades daqui pelo resto da vida.
Para fechar esse texto denso, um vídeo do comediante Chris Rock para rir e refletir sobre o preconceito.
また今度!
Para ler mais: 告白~declaração
Agradecimento pelas imagens: MangaNite, Messynessy
10 comments Outubro 6, 2008
外食 – Comendo Fora
Olá! O post de hoje está delicioso, cheio de guloseimas de encher os olhos. Isso, é claro, se você gosta de comida oriental. Quando cheguei no Japão tudo o que eu conseguia ler nas placas era らめん (lámen, aquele macarrão tipo miojo). Comi tanto isso que agora eu tento evitar ao máximo! Para mim, a refeição é sagrada e não uma simples despesa doméstica, portanto, sempre que posso, procuro comer pratos intrigantes para descobrir novos sabores. Tóquio, com toda sua diversidade, é definitivamente o lugar para isso!
A culinária japonesa é conhecida mundialmente e tem muitas peculiaridades que a fazem um tanto exótica. Entre os brasileiros talvez o prato mais icônico seja o sashimi, peixe cru servido ao molho shoyu e wasabi. Desde de criança eu nunca fui fã de peixe, fazia de tudo para não comer nada que viesse do mar. Porém, após provar sashimi, meu conceito mudou. Até hoje o único peixe que faço questão de comer é o filé de atum, cru logicamente (se fritar eu preciso me preparar psicologicamente antes de digerir).

É dito que todo japonês come pelo menos 1 vez por semana num 鮨屋 (sushiya, ou restaurante de sushi)
Além de deliciosos os pratos, feitos com frutos do mar e verduras, são muito saudáveis e nutritivos. O tipo mais comum de restaurante é aquele onde os pratinhos ficam rodando ao redor de um balcão e você pega qual quiser. De acordo com o ingrediente o preço muda, isso é indicado pela cor do prato. Geralmente o valor pode variar entre ¥180 até ¥600 por belisco. Eu geralmente como de 5 a 10 pratos de sushi e saio muito feliz do sushiya-san.

Típica ruazinha com bares-restaurantes no centro de Tóquio, em Shinjuku
O capitalismo japonês fez com que pequenos estabelecimentos familiares fossem varidos por redes de fast-food e cadeias de restaurante como “McDonnald’s”, “Outback”, “Matsuya” entre diversos outros que só mudam de endereço. Como tive a sorte de morar no interior, pude provar a comida caseira japonesa e acreditem, há sim uma singela diferença. Acho que mais do que qualquer outra coisa, sinto falta dos pequenos restaurantes de lá.

O grande barato dos restaurantes japoneses é o menu-vitrine, onde réplicas dos pratos são exibidas juntamente com os preços e descrição de ingredientes!
Antes de me mudar para a capital, reparei que a grande parte dos brasileiros comiam em restaurantes que mostravam fotos nos cardápios. Logicamente é difícil escolher o que comer quando não se consegue LER o nome do prato. Outra opção era ir a lugares onde haviam displays com réplicas da comida servida no local. Além de dar a noção exata do que é o prato, essas comidinhas de mentira atiçam nosso apetite e ajudam a decidir o que comer num piscar de olhos.

A imitação muitas vezes chega a ser mais apetitosa que o prato de verdade, esse tipo de vitrine é muito comum em Tóquio e não tenho dúvidas que os pratos exibidos nela são os que mais vendem no estabelecimento
Tóquio é conhecida pelo seu ritmo frenético de vida. É muito comum ver pessoas literalmente correndo nas ruas vestidas de terno, vestido ou uniforme escolar na tentativa de não se atrasar para os compromissos. É claro que quem tem a agenda apertada a esse ponto não pode se dar o luxo de comer em lugares onde o prato demora para ser servido. Tempo é dinheiro na capital japonesa e uma forma de economizá-lo é almoçar em cadeias de fast-food como Yoshinoya e Matsudaya, que são praticamente a mesma coisa: restaurantes onde a comida é servida em menos de 5 minutos.
Uma coisa que me chamou a atenção foi o 立ち食い (tatigui), que é uma “modalidade” de comer em lugares onde não há cadeiras para se sentar, se faz a refeição em pé, sob um balcão. É muito comum ver assalariados japoneses se amontoando nesses lugares que além de baratos são extremamente rápidos. Afinal, já experimentou almoçar em pé? Aposto que termina sua refeição em menos de 5 minutos.

Típica vendedora automática do Matsudaya. Não é preciso caixa nem garçom nos restaurantes rápidos japoneses, nesse aparelho você faz o pedido, paga e recebe o troco sem interferência de nenhum funcionário. Depois é só entregar o bilhete no balcão e aguardar seu prato chegar
Existem máquinas automáticas para tudo. Para vender refrigerante, cigarro, petiscos e, dentro de estabelecimentos, bilhetes de pedidos dos clientes. É tão rápido que não dá tempo de formar fila na frente delas. Geralmente os japoneses já têm as moedinhas contadas nas mãos quanto chegam até o aparelho. Se você demora mais que alguns segundos para escolher o que quer e depois ir pegar o dinheiro é muito provável que alguém atrás de você vá soltar um *humph* irritado por estar com pressa de comer logo.

As máquinas mais novas têm monitor sensível ao toque e até falam com você, agradecendo pela preferência no mais polido japonês
O povo japonês adora comer. As pessoas chegam a atravessar o país apenas para experimentar o frango especial ou alguma iguaria que só existe naquela região. Cara província, cada cidade tem sua comida famosa e existe toda uma estrutura de turismo gastronômico no Japão. Nas grandes estações de trem de Tóquio exitem mapas da região que são distribuídos gratuitamente, o que mais se apontam neles, além dos pontos turísticos, são os restaurantes da região. O pessoal aqui planeja o jantar com tanto afinco quanto planeja uma viagem longa.

Esse é restaurante Matsuya, bem comum no Japão, onde almoço quase todos os dias (já enjoei)
É claro que existem restaurantes para todas as situações e bolsos. Como eu sempre estou correndo entre o trabalho e a escola de japonês, minhas alternativas residem nos lugares onde se come rápido e se paga barato. Um bom almoço pode sair por ¥500, mas eu geralmente prefiro os de ¥1000 pela qualidade e quantidade do prato, geralmente com carne bovina (caríssima no Japão).

Esse é o meu prato de domingo, numa pseudo churrascaria perto de casa. Não faço idéia do que seja, mas é muito bom!!! A sopa é algum tipo de carne refogada com tofu e temperos especiais, tem a salada com alface e couve, um prato com piccles e verduras e o famoso arroz com fibras (deve ser transgênico, mas é gostoso pacas)
Não dá para falar de tudo da cozinha japonesa, percebe-se que eu mesmo raramente como prato japonês. Sempre tento almoçar o que para mim sempre foi a refeição ideal: arroz, feijão e bife. Mas como isso é raro por essas bandas, agente vai improvisando. Esses são os pratos que fazem parte do meu dia-a-dia, um típico estudante-trabalhador estrangeiro vivendo em Tóquio. Como 2 vezes por dia em restaurantes diferentes durante toda a semana, então sei muito bem reconhecer cada tipo deles. Há os para se comer só, os para se levar a namorada e os para se reunir a galera do escritório e comemorar. Os preços não variam tanto de lugar para lugar, sendo os mais caros os que são especializados em carne (droga, logo ela).
Antes de comer, é costume dizer em voz alta: いただきます! (itadakimasu) que é o equivalente à bênção cristã sobre a comida. Segura-se o hashi (palitos) entre os polegares com a mão fechada em oração, faz-se um breve cumprimento com a cabeça enquanto se diz a palavra. Itadakimasu é a forma polida de もらう (morau), o verbo “receber” em japonês. Então pode-se dizer que itadakimasu significa “estou a receber com gratidão”, como “obrigado, Senhor, pelo alimento dado”. Dizer isso demonstra grande educação e é sempre bom ser educado à mesa, por isso da próxima vez que for a um restaurante japonês não esqueça de dizer ITADAKIMASU!!!
Bom apetite!
また今度
3 comments Setembro 18, 2008







